sábado, 22 de agosto de 2009

Carolina Patrocínio e a Miss Piggy

Eu vejo pouca televisão mas confesso que habituei-me a conviver com a presença da Carolina Patrocínio muito por culpa do meu filho, que como tantos outros na sua idade raramente perdem o Disney Kids.

A coquete da SIC já saíu do programa infantil, mas apesar do seu estilo prosaico tão distintivo de quem não acrescenta nada ao teleponto, sempre revi nesta figurinha os maneirismos próprios das novas vedetas da televisão em Portugal, inaugurada pela geração Morangos com Açucar: encolhe a barriguinha, estica o rabinho, e agora sorri, sorri muito!

A Carolina Patrocínio faz tudo isto muito bem, e quem a vê ao lado do João Manzarra no Todos Gostam do Verão, na SIC, até se esquece por breves minutos de que a Carolina não tem qualquer talento ou formação para assumir-se como uma das caras da estação de Carnaxide, e no entanto lá está ela de barriguinha encolhida, a esticar o rabinho e a sorrir, a sorrir muito, como tão bem sabe fazer.

Felizmente para a Carolina, no TGV a coquete da SIC pode pendurar-se no talento natural de João Manzarra, um ícone em construção e com a telegenia própria de quem comunica com o espectador de forma natural. Ou seja, sem o tal sorriso plasticizante.

Como disse no início, raramente vejo televisão mas pareço fadado para acompanhar de perto a ascenção – vou corrigir para ascenção e queda - da Carolina.

Há semanas atrás fiz-me acompanhar da televisão durante um almoço tardio de fim-de-semana. O zapping levou-me até ao Episódio Especial que a SIC transmite aos Sábados, e o mínimo que posso dizer é que foi de facto muuuito especial ver a entrevista da Carolina nesse episódio, aparentemente especial.

Confesso que parei de mastigar durante largos minutos – eu e toda a gente que estava a almoçar aquela hora em Portugal concerteza -, incrédulo com as anormalidades que a coquete da SIC conseguiu verbalizar em pouco mais de 8 minutos, numa demonstração categórica de que afinal não há limites para a estupidez humana.

Numa altura de sufoco económico contínuo, em que diariamente são exigidos cada vez maiores sacrifícios às famílias portuguesas – entre as quais eu me incluo -, acho no mínimo patético que a SIC ajude a promover barbies como a Carolina Patrocínio, que em entrevista a um canal aberto de referência em Portugal, diz que só come cerejas quando a empregada tira os caroços.

Mas a teen não se ficou por aqui. Entusiasmada pelo endeusamento promovido pelo entrevistador, um tal de Daniel Oliveira, a ex-Disney Kids revelou ainda maior soberba ao afirmar que é uma trabalheira descascar a fruta, e que pede à sua empregada para tirar as grainhas das uvas, porque só assim consegue comer uvas.

As revelações por esta altura já me provocavam asco, mas ao mesmo tempo senti-me incapaz de mudar o canal hipnotizado por tamanha futilidade. Senti-me como a traça a esvoaçar em redor do clarão da lâmpada: foge da luuuz Pedro, foge da Luuuuz!

Mas eu não fugi, e assim continuei a acompanhar este momento de televisão que tão cedo não vai desaparecer dos arquivos do Youtube.

E quando pensei pior não pode ficar, eis que a coquete da SIC assume sobranceiramente perante as câmeras, que odeia perder e que prefere fazer batota a perder.

Neste caso, porém, a culpa não pode ser incutada à barbie Carolina mas porventura aos seus pais, que poderão ter falhado na transmissão de valores básicos que devem alicerçar o caracter de qualquer indivíduo, como a honestidade.

Reparem que digo porventura poderão, e não estou a afirmar cabalmente que falharam, nem poderia fazê-lo porque em abono da verdade não sei se sim ou se não.

Costuma dizer-se que a maçã nunca cai muito longe da árvore. Vou no entanto cingir-me às palavras da Carolina, até porque a menina é neta de Vasco Vieira de Almeida, da Sociedade de Advogados Vieira de Almeida, que curiosamente esteve nas primeiras páginas do Correio da Manhã alegadamente por ter recebido 6,5 milhões de euros do Freeport.

En passant diga-se que esta notícia foi considerada grave e difamatória pela mesma sociedade de advogados, que de imediato desencadeou uma acção judicial contra o Correio da Manhã, isto apesar da Polícia Judiciária ter levado a cabo buscas nos escritórios da Vieira de Almeida.

Mas vamos cingir-nos ao que é realmente importante: Carolina Patrocínio, a menina da SIC que vive no mundo da fantasia e que só come cerejas e uvas se a empregada tirar os caroços e as grainhas. A menina que prefere fazer batota a perder.

Não sei se o José Socrates teve conhecimento desta entrevista, mas a verdade é que pouco tempo depois Sócrates empossou a coquete da SIC como mandatária para a Juventude do Partido Socialista nas próximas eleições.

Não quero parecer mesquinho e entregar-me à maledicência pura, mas por mais que pense não consigo encontrar uma razão plausível para que Sócrates escolha Carolina como a representante dos jovens em Portugal, isto apesar de ambos terem pelo menos duas coisas em comum:

- Carolina não tem qualquer talento especial para fazer televisão, já Sócrates não tem qualquer talento especial para ser Primeiro Ministro.

- Carolina não tem qualquer licenciatura em comunicação social, já o diploma de Sócrates foi assinado num domigo em Setembro, e segundo o semanário Expresso de 31 de Março de 2007, Frederico Oliveira Pinto na altura presidente do conselho cinetífico da universidade Independente, nunca viu Sócrates na instituição durante todo o curso.

Os dois diferenciam-se precisamente na questão da batota. Carolina diz despudoradamente que prefere ser desonesta a perder, já Sócrates por seu lado aceita com liberdade democrática e com um sorriso nos lábios que digam e provem que ele não tem razão, e nunca mentiu aos portugueses desde que foi eleito. Pois.

E por falar em erro, este da Carolina Patrocínio ser a mandatária do PS para a juventude só pode ser um erro grosseiro de casting, ou então uma piada de muito mau gosto.

Pergunto se os jovens deste país se revêm nesta pessoa fútil e vazia que agora os representa? Duvido.

Duvido que a maior parte dos jovens tenha empregadas em casa para descascar a frutinha e tirar os caroços às cerejas, e as grainhas às uvas por exemplo. Criadagem em Portugal é coisa que só existe nas telenovelas da TVI, ou em famílias abastadas como a da princesa Carolina.

Duvido também que a maior parte dos jovens em Portugal possam dar-se ao luxo de acordar tarde, como faz assumidamente a teen da SIC. Na mundo real as pessoas acordam cedo para estudar e trabalhar, mas a Carolina fica a dormir até mais tarde com o Coelho Gigante e a Alice, no país das Maravilhas.

Também duvido que a maior parte dos jovens pensem em sair de casa aos 20, com o propósito assumido de arranjar uma casa própria, entre outras coisas para dar festas para os amigos, como disse Carolina Patrocínio numa entrevista em 2008.

Finalmente duvido muito do bom senso de Sócrates, e de quem o assistiu nesta decisão absurda para não dizer rídicula.

A menina da SIC faz-me lembrar uma figura com a qual cresci há muitos anos atrás, a Miss Piggy dos Marretas. A Miss Piggy não tinha qualquer talento, mas tal como a Carolina achava-se bela, e acreditava que isso bastava para ser a estrela da companhia.

Tal como a Miss Piggy no universo dos Marretas esse é o único mérito que eu lhe reconheço: é gira.

E infelizmente isso parece chegar numa sociedade cada vez menos assente num sistema meritório, e cada vez mais vazia de ideias e de referências sólidas e inspiradoras, e que insiste em dar pérolas a porcos. Ou neste caso a porcas, como a Miss Piggy.
E agora como diria a estrelinha da SIC: 3, 2, 1 já está!

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Clint Eastwood e as não relações

O destino tem destas coisas.

Há dias atrás, e depois de vários meses sem falar com uma amiga minha, fui surpreendido por uma sms da Carla à qual respondi e acabamos por trocar algumas palavras simpáticas de ocasião.

Nessa mesma noite e de forma completamente inesperada, cruzamo-nos numa conhecida discoteca da margem sul. Inesperada não tanto pela Carla porque é uma habitué confessa da noite, mas por mim que raramente vou a discotecas, ainda para mais longe do perímetro urbano.

Curiosamente, há poucos meses atrás dei de caras com outra amiga minha, numa ainda menos vista aparição num espaço nocturno do mesmo género, mas desta feita no Montijo.

Não deixa de ser surpreendente atendendo ao facto de que em 2009 apenas fui a discotecas (humm.. ora deixa cá fazer contas..) duas vezes.

O Porto tem as noites brancas – e aproveito para esclarecer que não são festas onde o branco é o dress code obrigatório. Não. São festas onde se executam empresários e porteiros a tiro de pistola e shot guns, e não, não é preciso convite.

Se no norte o estilo da máfia local é ainda muito ao género do mítico spaghetti western de Sergio Leone Por um punhado de dólares, com muitos tiros, gajos feios, com cara de mau e com roupas que ninguém usa, por cá os enredos assumem uma dimensão muito mais sofisticada, elegante e de salto alto, ao melhor estilo do Sexo e a Cidade.

Lá em cima uma pessoa sai à noite e arrisca-se a dar de caras com um qualquer gang armado até aos dentes. Aqui por baixo uma pessoa sai à noite e dá de caras com as exs. Escolha difícil, gang armado até aos dentes ou exs. Humm..

Exageros à parte, os dois encontros imediatos de 3º grau não foram nada assustadores, bem pelo contrário, mas apesar de agradáveis partilharam algumas coincidências verdadeiramente incríveis, e isso sim é que é assustador.

É certo que faltam ainda 135 dias para o final do ano, mas nas duas vezes em 2009 que eu resolvo andar uns 20 kms de carro para não ser cumprimentado pelos dois gorilas à porta, depois de esperar uma eternidade para levar um cartão de consumo de 15€ e finalmente conseguir entrar, nessas duas vezes dou de caras com o meu gang armado privado.

Curiosamente as duas ocasiões envolveram as únicas duas pessoas a quem eu posso chamar ex qualquer coisa nos últimos tempos, o que não deixa de ser intrigante.

Eu ainda sou do tempo em que nós putos diziamos às miudas queres namorar comigo? Depois o namorar comigo foi substituído pelo andar comigo, e quando eu esperava que a seguir viesse o queres correr comigo? eis que surge o conceito da não relação, em que se assumem compromissos não se dizendo coisa alguma.

A Carla e a Ana (nomes que podem ser fictícios) enquadravam-se neste contexto das não relações sérias. Eu era o não namorado, não oficial, não assumido e presente apenas quando isso não envolvia estar com mais alguém!

É um não conceito de não relações muito moderno, mas quanto a mim padece duma certa e determinada negatividade. Reparem que nos últimos três parágrafos usei 9 vezes a palavra não. 10 com esta.

Foram portanto as duas últimas vezes no último ano e meio talvez, em que eu não tentei assumir uma não relação, porque achava que realmente valia a pena não tentar.

Isto pode parecer confuso mas compreender a dimensão deste não problema é até bastante simples, basta inverter a lógica do discurso e tudo fica mais claro: é um problema quando tentamos assumir uma relação porque achamos realmente que valia a pena. Cá está, muito mais claro!

Com a Carla e a Ana achei realmente que valia a pena não tentar. De tempos a tempos passam-me estas não coisas pela minha cabeça..

E quando achamos que vale realmente a pena as coisas mudam. Um beijo não é só um beijo, e quando um beijo deixa de ser só um beijo isso sim é um problema, especialmente quando estamos numa não relação.

As duas não relações duraram praticamente o mesmo tempo, e numa coincidência retorcida de fazer arrepiar aquele fulano macabro dos insólitos Yorn, as duas não relações terminaram pelas mesmas não razões. Essas guardo para mim, mas em jeito de desabafo deixaram-me profundamente não desiludido.

Nos meus tempos de puto era tudo mais fácil. As coisas tinham nome e não ficavam não arrumadas em meias palavras. Era o tempo do gosto de ti e do queres namorar comigo? do sim e do não, das dúvidas e das incertezas, das paixões e das tristezas. Tudo coisas que desapareceram com as não relações, e porquê? Porque não faz sentido.

Claro que não voltava para lá nem que me pagassem, porque foi também o tempo de coisas muito más como os New Kids on The Block, os penteados à Gloria Estefan e o acne, qual das três a pior.


Seja como for, as não relações de hoje continuam a ser dificeis de interpretar.

Imagino-me muitas vezes no meio do elenco de Por um punhado de dólares, a obra mais famosa de Sergio Leone.

Ali estou eu, duro, mau como as cobras, com barba de três dias, de chapéu à cowboy a sombrear-me os olhos enquanto masco o meu tabaco, com o poncho de alpaca a esvoaçar ao vento por entre dois revólver Colt prontos a disparar..

(entra a música)

tuuuiuuuiuuuuuuuu...

Avanço decidido para o confronto final, com o ruído das esporas a marcar a cadência dos meus passos..

tuuuiuuuiuuuuuuuu...

E no auge da intensidade dramática, com toda a gente presa ao ecrã.. desafio o Clint Eastwood para um não duelo!

Baaah!!

domingo, 9 de agosto de 2009

Dharma & Greg

De acordo com o INE a taxa de nupcialidade no nosso país tem vindo a abrandar nos últimos anos.

Em 2006 por exemplo celebraram-se 47.857 casamentos católicos e civis, contra apenas 46.329 em 2007, ou seja, menos 1528 casamentos. E este valor continuou a diminuir ao mesmo ritmo em 2008 com pouco mais de 44.800 ofícios nas conservatórias do registo civil em Portugal.

A primeira conclusão a retirar desta leitura é que contrariamente às expectativas europeias, somos um país cada vez com mais bom senso, mas não só. Somos também um país de pessoas cada vez menos interessadas em dividir o nosso roupeiro com quem quer que seja, e se dúvidas houvessem basta olhar para a taxa de divórcios: números redondos, 50 a cada 100 casamentos.

Uma segunda leitura permite-nos uma análise ainda mais pertinente. Não só queremos cada vez menos dividir o nosso roupeiro com outra pessoa, como metade dos que pensam ahh e tal não deve ser assim tão mau, afinal descobrem que sim, afinal é assim tão mau!

Mas à luz das estatísticas do INE há ainda uma outra leitura possível, essa sim realmente assustadora, senão vejamos: números redondos, das 90.000 pessoas que todos os anos prometem amar-se para todo o sempre, cerca de 45.000 começam à procura de outra pessoa para amar para todo o sempre ao final de 12 meses. É um todo o sempre assim a atirar para o curtinhooo..

É por isto que eu sou a favor do casamento entre pessoas estranhas.

Admito que a ideia pode parecer no mínimo absurda, para não dizer estúpida mesmo, mas só num primeiro momento.

Eu ainda sou do tempo do Impulse e do anúncio do desconhecido que oferecia flores. Isso já lá vai. Como as coisas estão hoje em dia se um desconhecido lhe oferecer flores provavelmente é um qué-frô a tentar fazer negócio. Mas se um desconhecido lhe pedir em casamento, isso não só é Impulse, como é também muito inteligente.

Em primeiro lugar nenhum dos dois conhece o respectivo cônjugue, é portanto garantia de que o estado de graça vai permanecer intacto durante largos meses. Ou seja, quando começar a descobrir aquelas pequenas coisas que a irritam de morte, provavelmente já passou a barreira psicológica do primeiro ano, o mais difícil para a maior parte dos casais. E quem aguenta 1 ano se calhar aguenta 10 ou 20!

A ideia que as actuais estatísticas sugerem é que o casamento é uma espécie de fuga para a frente. Um desfecho lógico mas não apaixonado.

Reparem neste testemunho que só por acaso não saiu na revista Happy de Agosto:

Daniela e Francisco. 8 anos de namoro e acomodados à segurança duma relação que não teve um motivo forte para terminar. Pressionados pela família resolvem dar um passo em frente. O passo lógico. Afinal começa a ficar tarde para pensar em filhos. Porque não?

Certamente nem todos os divórcios apresentam esta patologia, mas para muitos este será o quadro clínico de diagnóstico mais frequente. Muitos casais não encontram motivos fortes para terminarem, mas se calhar também não têm um motivo forte para continuarem. Continuam porque é o que eles e os outros esperam de si próprios.

Ora, o casamento entre estranhos é por si só uma completa aventura. Aqui não existe nenhum passo lógico porque a ideia é absurda, nem existem pressões por parte da família porque verdade seja dita ninguém estava à espera!

Depois há sempre o lado fetichista de ter sexo com um estranho, que afinal é o seu marido! Estão garantidas noites e noites de descoberta e mistério, ao invés do habitual e rotineiro sexo já com 8 anos de idade, aquele que dura quase sempre o mesmo tempo, que se faz quase sempre na mesma posição, e que termina quase sempre com o mesmo sono profundo sem direito a 2ª volta.

O casamento entre pessoas estranhas apresenta ainda outra vantagem que não deve ser subestimada. Não sabendo coisa alguma dos respectivos cônjugues, nem tão pouco quem eles são até à cerimónia propriamente dita, evita-se o contra-poder habitualmente instalado na pessoa das nossas sogras.

Mãe: Tu é que sabes filha, mas cá para mim ficavas muito melhor com o filho do Sr. Bento, lá da Mercearia.

Filha: ... Mãe eu amo o Ricardo.

Mãe: Oh filha mas ficavas tão bem com ele! É um rapaz com juizo. Está a terminar o curso e diz que está muito bem na vida.

Filha: ... Já falamos sobre isso mãe.

Mãe: Tem lá algum jeito agora ires casar com um músico, onde é que já se viu?! E que vida é que ele te vai dar querida?

Na sociedade actual em que vivemos informação é poder, e a falta dela neste caso concreto só traz vantagens. A todas as sogras devia ser interdito o acesso a informações como o grau de ensino dos futuros genros, as qualificações profissionais, se têm ou não emprego, quanto ganham, se têm ou não carro, etc, etc.

A verdade é para ser dita doa a quem doer. As sogras nunca olham para os futuros genros com o coração, mas sim com a cabeça. Ao contrário das filhas que estão apaixonadas, as sogras analisam tudo com um pensamento crítico particularmente acutilante. Posso estar enganado mas está para nascer a sogra que entre um futuro médico cirurgião e um aspirante a músico escolha o aspirante a Bono para a sua filha.

A ideia dum casamento entre estranhos pode continuar a parecer absurda, mas olhando para as estatísticas do INE não existe um único argumento que contrarie de forma assertiva a validade desta opção.
Os números demonstram de forma clara que um período longo de namoro não garante absolutamente nada quando chega o momento da verdade, e com um divórcio a cada dois casamentos apenas ao final de 12 meses, casar com um completo desconhecido oferece exactamente as mesmas possibilidades de sucesso que casar com o seu namoradinho do liceu, 50 – 50. E com uma vantagem. O sexo vai ser sempre uma surpresa. E quem é que não gosta de surpresas?

Por muito disparatada que a ideia possa parecer, a verdade é que já houve quem se lembrasse disto antes, mais precisamente a 24 de Setembro de 1997 quando foi para o ar o 1º episódio da série televisiva Darma & Greg.

Na série da ABC Jenna Elfman e Thomas Gibson interpretam Dharma e Greg, dois absolutos estranhos que conhecem-se e casam-se no primeiro encontro, apesar de serem o completo oposto um do outro. Uma ideia absurda que ao longo dos 115 episódios rendeu um Globo de Ouro, 6 Emmys, e 20 milhões de espectadores/ano nas primeiras 3 épocas.

Dharma & Greg estiveram juntos durante 5 anos, 4 anos mais que metade dos casamentos que se realizam em Portugal.

É verdade que se trata de ficção, mas quantas vezes a realidade imita a ficção, e com resultados supreendentes?

Da próxima vez que um estranho lhe oferecer flores, isso não é Impulse, é quase de certeza um pedido de casamento!

A ideia pode continuar a parecer absurda, mas diga lá que não ficou com vontade de dar um pulinho até à FNAC mais próxima para espreitar os preços do pack da 1ª temporada de Dharma&Greg?

terça-feira, 28 de julho de 2009

O teste Peter Pan


A última entrada no Blog do Homem com Cão terminou com uma questão à qual não dei resposta:

Ele é o homem certo para si?!
Método revolucionário escolhido por juri científico.

Acredito que a impertinência da pergunta merece algum desalinho da sua parte – especialmente se for casada com um homem com cão-, mas e se fosse mesmo possível quantificar até que ponto ele é, ou não, o homem certo para si? O que você faria?

Preferia viver na ignorância para sempre ou ia querer fazer as suas continhas?

Se por esta altura já está de máquina de calcular na mão e a esfregar as mãos de contente, então esta entrada foi mesmo escrita a pensar em si.

Primeiro que tudo convém explicar no que consiste afinal este método revolucionário.

Trata-se tão somente duma fórmula que permite calcular numa escala de 0 a 20 até que ponto o seu namorado, junto, ou marido, é ou não o homem certo para si. Preparada para o teste que pode mudar a sua vida? (esta frase é tãaaaao Happy!)

Depois de muitos meses de trabalho (dois dias) os investigadores (eu) descobriram uma fórmula simples, aplicável a todos os homens com cão, e por todas as mulheres com gato. É universal, objectiva, coerente e acima de tudo infalível. É o Teste Peter Pan!




H = (P + F)/2



A formula explica-se do seguinte modo:


Um homem – qualquer homem – é a soma de duas partes distintas. Personalidade e Físico (P + F) divididos por 2.

A Personalidade por sua vez resulta da soma de 5 elementos fundamentais:

inteligência; carácter; sensibilidade; respeito (por si próprio e pelos outros); e capacidade de amar ou gostar (de si próprio e dos outros).

Os primeiros 4 elementos pontuam de 0 a 5. O último é o elemento mais importante na Personalidade, e por isso pontua a dobrar de 0 a 10.

Depois de atribuir um valor a cada um destes elementos soma as 5 parcelas. Esse número terá então de ser dividido pelos ciumes na seguinte escala de 0 a 3:

0 não sente ciumes, nem mesmo quando você sai com o seu melhor amigo.
1 sente alguns ciumes mas não se nota nunca.
2 sente ciumes, amua ocasionalmente mas evita demonstrar.
3 sente muitos ciumes, faz cenas, e chega a ser paranóico.

Quanto mais ciumento for o seu namorado, junto, marido ou pretendente a qualquer coisa, mais este valor será dividido. Um exemplo prático:

Duarte, 34 anos, engenheiro civil.

Inteligência 4
Caracter 4
Sensibilidade 4
Respeito 4
Capacidade de amar 8
Total 24
Ciumes 3
Total final 8

Neste caso os 24 pontos dos 5 elementos foram divididos por 3 porque o Duarte é possessivo, ciumento e paranóico a ponto de fazer um escândalo porque um tipo qualquer na discoteca não tirava os olhos de si. Aquilo que era um bom resultado transformou-se num verdadeiro desastre.
Mas numa boa relação nem só de boa personalidade vive uma mulher com gato.
O Físico é igualmente importante e também resulta da soma de 5 elementos fundamentais:

corpo; cara; estilo; charme; e cama.

Os primeiros 4 elementos pontuam de 0 a 5. Como é óbvio a cama é o elemento mais decisivo na parte física, e como tal pontua a dobrar, de 0 a 10.

O mecanismo é exactamente igual e depois de atribuido um valor a cada elemento basta fazer as contas e achar o valor total da soma das partes.

Mas também aqui há um elemento divisor, neste caso o egoismo numa escala de 0 a 3.

0 pessoa completamente altruísta. Dá tudo o que tem.
1 se é egoísta não se nota, nem nos dias maus.
2 egoista em muitas coisas, especialmente nos afectos. Recebe mais do que dá.
3 pessoa totalmente egocentrada. É a última coca cola do deserto.

É certo e sabido que pessoas muito bonitas são normalmente muito egocentradas, egoístas e viradas para o seu próprio umbigo. É por isso justo que seja este o elemento que come pontos na parte física. Vamos a um caso prático:

Henrique, 38 anos, médico.

Corpo 3
Cara 3
Estilo 4
Charme 5
Cama 8
Total 23
Egoismo 1
Total final 23

Henrique pode não ser a última bolachinha do pacote, mas é competente, charmoso e tem um estilo sóbrio e personalizado. Fez quase os mesmos pontos que o nosso amigo Engenheiro Civil, mas por ser uma pessoa que não vive centrada no seu umbigo mantém os 23 pontos.

Ora bem, chegados aqui falta somar o valor da Personalidade de Duarte, o Engenheiro Civil, ao valor do Médico, Henrique.

Claro que no seu teste a pessoa será sempre a mesma, mas no nosso caso o somatório da Personalidade e do Físico corresponde a (8 + 23 = 31)/2 = 15.5 valores.

Se Duarte o Engenheiro Civil fosse um pouco menos ciumento, em vez dos 8 miseráveis pontos somados na Personalidade teria feito 12, e isso teria sido suficiente para atingir um valor de 17,5 valores, ou seja, um homem com cão já muito próximo da perfeição. O verdadeiro supra-sumo da batata frita!

Parece complicado mas é na verdade muito simples. Basta que responda com honestidade e verá que o resultado pode ser surpreendente.

E por falar em resultados, se já fez as contas duas vezes e continua a da o mesmo valor, então fique a saber o seguinte:

0 a 4,5 valores

Houston, we have a problem...

Já percebeu ou quer que eu faça um desenho? Está claramente a perder o seu tempo com a pessoa errada. Faça-se a vida e seja positiva, afinal pior que este resultado é quase impossível, portanto à partida qualquer outro homem é melhor que o seu!

4,5 a 9,5 valores

A menos que um dos lados compense o outro, sugiro que repense a sua relação com alguma urgência. Com estes resultados você não pode ser uma pessoa realizada emocionalmente, e resta a dúvida de saber se ele é óptimo na cama e um miserável fora dela, ou se é uma excelente pessoa mas miserável na cama.

9,5 a 13.5 valores

Este é o terreno indefinido da relação. Não é negativo nem muito positivo, não é bom nem é mau, não é carne nem é peixe.
Se gosta do assim assim, do pode ser, de carros cinzentos, de fazer férias em Albufeira em pleno mês de Agosto e de fazer compras no Jumbo no final do mês, então um homem mediano está óptimo para si, porque a média dos portugueses faz tudo aquilo que foi descrito com grande frequência. Mas não se iluda, a menos que ache apaixonante ir ao Jumbo fazer compras no final do mês, paixão é a última coisa que sustenta a sua actual relação.

13,5 a 17,5 valores

Diga lá se não suspirou de alívio depois de fazer as continhas?! Não só tem um excelente homem com cão ao seu lado, como ainda olha para ele exactamente da mesma forma como olhava no início, ou seja, continua a achá-lo lindo, encantadador, e muuuito bom na cama.
Um aviso porém: pelo sim pelo não divulgue este resultado apenas às suas amigas mais chegadas, não vá despertar a cobiça alheia nos olhares mais invejosos.

17,5 a 20 valores

Se não rezou já a todos os santinhos a agradecer a sorte que teve então comece a fazê-lo!
Você não só tem um homem com cão quase perfeito, sólido do ponto de vista emocional, com carácter forte, que a adora, e que está disposto a viver para fazê-la feliz, como tudo isso vem ainda por cima embrulhado em papel George Clooney!

Uma ida a Fátima a pé não seria de todo despropositada.
Há porém um lado menos bom. Esqueça o euromilhões. Com tanta sorte no amor não vai ganhar 1€ que seja nos próximos anos.

Então do que está à espera? Comece a fazer as contas e descubra o que lhe saiu na rifa!

Se não gostou do resultado lembre-se que na quermesse as rifas nunca acabam e sai sempre prémio..

I'm (not) Happy!

Uma das coisas que mais vontade me dá de rir – e quando digo vontade de rir quero dizer rir como se não houvesse amanhã – são os temas especiais das revistas femininas.

Já sei o que estão a pensar e primeiro que tudo convém desde já desmistificar esta questão: sim, eu leio revistas femininas.

Melhor dizendo, eu TAMBÉM leio revistas femininas. Assim está melhor.

O também faz toda a diferença nesta frase, não só porque afasta quaisquer suspeitas que possam recair sobre mim no que toca à minha sexualidade (promove a ideia de que somos muitos a ler as revistas femininas, logo não podemos ser todos gay), mas também porque é um dado adquirido que em quase tudo o que são cabeleireiros, salas de espera, consultórios e gabinetes há sempre uma revista feminina com pelo menos um ou dois anos de idade, e com temas surpreendentemente actuais. Mais tarde ou mais cedo acabamos sempre por ler.

Vamos avançar com um exemplo, e para não ferir susceptibilidades achei por bem proceder a uma escolha completamente aleatória. Saiu a Happy!

Na capa de Março deste ano a Happy fazia alarde aos seguintes temas:

- Que idade tem a sua pele?

- Roteiro de Swing.

- Espíritos: fomos falar com eles!

Há 7 meses atrás, na edição de Agosto de 2008, a mesma Happy avançava com os seguintes temas:

- À procura do melhor hidratante: quando a pele pede água.

- Guião para se tornar uma dominadora: uma viagem alucinante ao mundo da dominação!

- Viagem aos seus outros “eus”: regressar à infância sem terapia.

Rapidamente concluimos que passados apenas 7 meses a Happy ainda continua a falar da sua pele, continua a vender sexo quase como se tivesse colocado um repórter infiltrado durante meses num qualquer sub-mundo fetichista e subversivo, (quando na verdade devem ter realizado uma pesquisa rápida na internet), e continua a explorar o seu lado mais esotérico, e se há 1 ano atrás prometia uma viagem à sua infância por apenas 1,50€ (preço em vigor em Agosto de 2008), há 4 meses atrás deram-se ao trabalho de entrevistar espíritos a um preço que nem o Prof. Karamba ou o Mestre Mambo conseguem superar.

Ora já é suficientemente mau que a Happy ocupe cerca de 60% do seu espaço gráfico com publicidade directa ou indirecta, mas é ainda pior quando os 40% destinados a conteúdos editoriais são ocupados com coisas tão credíveis como entrevistas a espíritos.

Não quero parecer mesquinho mas isto a mim soa-me a aldrabice.

Outra coisinha que causa alguma urticária é a escolha da modelo que habitualmente faz a capa das Happy. A este respeito tenho apenas uma pergunta a fazer: porque razão escolhem sempre modelos anoréticas, com aquele aspecto doentio de quem só comeu uma folha de alface e meio tomate nos últimos 5 dias?

Aqui as revistas masculinas ganham aos pontos. Na FHM ou na Maxmen por exemplo as modelos nas capas vendem saúde, e não têm aquele aspecto enfermo de quem está a precisar duma tosta mista e duma transfusão de sangue a qualquer momento.

Mas o problema não está na embalagem, está naturalmente nos conteúdos, o que nos remete para o primeiro parágrafo deste post, os temas especiais das revistas femininas:

Sara, 30 anos, casada e com um filho: venceu a hipocondria.

Mas quem é esta Sara? Não tem último nome?

Filipe, 32 anos, arquitecto: gosta de ser dominado pela mulher quando chega a casa.

Humm.. E não é isso que acontece a todos os homens quando chegam a casa do trabalho?

Mariana, 34 anos, gestora: gosta de usar pinças, chicotes e mordaças.

Reparem que as jornalistas da Happy nunca perguntam o 2º nome aos entrevistados. Dá aquela ideia de estarmos a falar com alguém que nos é próximo, quase família! Muito bem pensado!

Paula, 40 anos, tem um filho de 11: gosta de passar uma semana na praia com o filho Miguel, e uma semana a divertir-se com os amigos fora do país.
Este testemunho é tão real mas tão real que parece ter saído do programa da Conceição Lino da SIC, o Nós Por Cá. Reparem nas semelhanças:

Paula, 40 anos, tem um filho de 11: trabalha 9 horas por dia para ganhar 800€/mês e ao fim-de-semena vai com as amigas para Ibiza.

É no mínimo absurdo que a revista feminina que mais vende em Portugal esteja tão distanciada da nossa realidade, o que só vem provar que as pessoas gostam de sonhar com um estilo de vida que na realidade sabem que não vão ter em momento algum da sua vida.

Voltemos aos contéudos. Convencido de que também eu seria capaz de produzir conteúdos igualmente happy!, resolvi debruçar-me seriamente sobre o assunto. Propus-me então encontrar um daqueles temas especiais de capa, forte, apelativo e com uma aplicação prática no quotidiano das mulheres com gato.

Um artigo one-fit capaz de servir a todas as mulheres com gato. Acima de tudo algo credível. Bom, talvez não tanto como as entrevistas a espíritos, mas afinal eu também não trabalho na Happy!

Esta é portanto a minha sugestão para a capa da revista Happy do próximo mês de Agosto, e com isto pretendo provar duas coisas:

- não percebendo nada de revistas femininas, consigo fazer melhor que a Happy.

- tenho um jeito incrível para vender melões na recta do Porto Alto.

Ele é o homem certo para si? Descubra a resposta nesta edição!
Método revolucionário escolhido por juri científico.

Cá está. Não conheço mulher com gato capaz de resistir a uma capa destas, e estou certo que uma revista feminina com este tema na capa vendia mais que melões na recta do Porto Alto.

Esta é a minha sugestão, e a mulher com gato que nunca quis se o fulano tal é o homem certo, que atire o primeiro melão.

...

Bem me parecia.
post-scriptum acrescento só mais uma coisa: como sou dado a efemérides, 1 ano depois de comprar a revista Happy pela 1ª vez (em Agosto de 2008), resolvi fazê-lo novamente com a edição de Agosto de 2009. E 1 ano depois encontro exactamente o mesmo tema na capa (regressão), e as mesmas modelos anoréticas, pálidas e com ar doentio.
Ou muito me engano ou não tarda mesmo nada devem estar para rebentar mais entrevistas a espíritos..

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Caglota, a segueia

16 de Julho. Chegou ao fim a primeira etapa do desenvolvimento académico do meu filho. Hoje cumpriu o seu primeiro objectivo, e com mérito: terminou a pré-primária.

Bem sei que a efeméride é de importância relativa para quem está de fora, mas para mim, um confesso pai babádo, hoje o Martim consolidou o primeiro alicerce daquilo que virá a ser enquanto homem, anos mais tarde.

A data foi devidamente assinalada com uma festa de finalistas no anfiteatro da escolinha.

Tudo corria dentro da normalidade quando o animador de serviço anunciou uma peça de teatro chamada Carlota, a sereia. Ajeitei-me um pouco melhor na cadeira – porque estas coisas dos miudos demoram sempre o seu tempo -, e fez-se silêncio na sala.

Três ou quatro minutos depois começo a ouvir a voz da narradora.

Caglota, a segueia..

Susti a respiração por breves instantes porque pareceu-me ter ouvido mal..

Ega uma vez uma segueia chamada Caglota..

Hummm.. Não, não ouvi mal. A narradora trocava os erres pelos guês. Será possível que ninguém tenha dado por isso no ensaio da peça? Aparentemente não porque a coisa continuou no mesmo guegisto, desculpem, registo.

Caglota vivia sozinha no mag, e estava tguiste pogque não tinha nenhum amigo paga bguincague..

Procuro mudar novamente de posição. Avizinha-se uma crise de urticária fulminante.

Um dia Caglota conheceu um pescadogue chamado Jeguemias..

Jeremias?! Mas será que não havia nenhum texto com mais “erres”?!

Apeguecebendo-se que Caglota estava tguiste, Jeguemias pegguntou a caglota se ela não queguia bguincague no bagco dele..

A nagadôga continuou neste registo durante toda a peça, o que naturalmente deu asas à minha imaginação prodigiosa.

Por exemplo, como seria viver um amor com uma pessoa assim? Sempre ouvi dizer que o amor não se procura, encontra-se. Então e se a senhoga dos guês me encontrasse? Como seria viver apaixonado por uma pessoa assim?

Teguêsa: Queguido, passas-me o entguecosto pogue favogue?

Eu: O entrecosto linda?

Teguêsa: Sim, o entguecosto..

Eu: Oh Teresa, diz comigo vá.. Entree...

Teguêsa: Entgueeee..

Eu: (... suspiro ...)

Teguêsa: Quegues mais sumo de laganja amogue?

Ahhhhhhhhhhhh! Não dá! Eu não sei se existem muitas mulheres com gato que troquem os erres pelos guês, mas se existem, essas à partida deixam de fazer parte da solução.

Este episodio insólito fez-me lembrar outros incidentes do género, por entre os muitos que vão decorando o meu álbum particular dedicado a encontros imediatos de 3º grau.

Assalta-me à memória um já antigo, com uma namorada do meu período pós-adolescente. Chamava-se Natacha e depois de algum tempo de troca de olhares e muito flirt, as coisas aqueceram numa saudosa noite de verão na Discoteca Seagull. Saudosa pela discoteca entenda-se, que explodiu em 1998 e com ela as recordações duma geração inteira, vaporizadas em segundos numa enorme bola de fogo.

Eu e a Natacha prosseguimos com o nosso affair, e pouco tempo depois calhou irmos até uma panificadora (ainda) muito afamada na zona, popularmente conhecida como bolos quentes. Provavelmente porque também vendem bolos, e porque estão quentes. Humm..

A Natacha teve então a infeliz ideia de pedir um palmier recheado. Infeliz porque entretanto começou a falar, do quê não me lembro bem mas lembro-me claramente de ver o palmier a revolver-se na boca dela dum lado para o outro. Blheeerk..

A história da Natacha terminou mais ou menos nesse momento, e durou pouco mais que o tempo de vida dum palmier.

O lado positivo da história: eu como de boca fechada, e não consigo afeiçoar-me a pessoas que comem de boca aberta. É um princípio elementar da educação.

O lado negativo da história: quando vou beber café com alguém tem de ser um café e um bolinho, não vá afeiçoar-me depressa demais à pessoa e ao bolinho.

Este episódio já tem uns aninhos largos, mas outro bastante mais recente promete ultrapassar os limites dos insólitos Yorn, onde tudo pode acontecer.

Conheci a Sofia pela net. Uma mulher moderna, culta, muito elegante, cuidada, e embora sofresse duma crise de auto-estima agudizada por uma relação recente menos conseguida, era uma pessoa que mantinha as suas prioridades bem presentes.

As coisas foram acontecendo de forma natural e numa certa ocasião aceitei o convite para um jantar chez-Sophie.

O facto de ser o primeiro jantar a sós conferia alguma formalidade ao acontecimento, que a própria Sofia nunca contrariou. Seria portanto um alegado – gosto muito desta palavra porque dá imenso jeito e alegadamente dá para usar em qualquer circunstância – jantar romântico.

Dizem os especialistas que 45% da primeira imagem que construimos de alguém vem apenas daquilo que conseguimos captar com os olhos. Ora, os 45% dessa primeira imagem foram dizimados por duas pantufas gigantes em forma de leão com pêlos até aos joelhos, e um deprimente robe numa côr indefinida entre o lilás e o violeta.

Jantamos bacalhau com natas, e a as pantufas eram de tal forma desproporcionadas que a ideia de colocar uma tijelinha no chão para alimentar as duas feras, na altura pareceu-me fazer todo o sentido.

Não me recordo do que falamos. Confesso que entrei naquele estado Charlie Brown em que já não ouvimos mais nada, só os monosílabos da professora uô uuô.. uô uô uô..

Ali estava eu aprumado com rigor e carinho, a dar o melhor de mim para duas feras de pêlo farfalhudo ao melhor estilo dos marretas, enrolados num robe que podia ter saído do guarda-roupa da minha falecida avó.

Escusado será dizer que as pantufas tiveram o mesmo desfecho que o palmier.

Posto isto pergunto-me, caramba, será assim tão difícil encontrar a peça que falta?

O palmier, as pantufas, os guês, e todos os epifenómenos ao melhor estilo da Quinta Dimensão que foram acontecendo comigo até aqui, pergunto-me, será que nesta história não serei eu o visitante do espaço?

Se calhar estacionei a minha nave espacial em 2ª fila numa qualquer rua de Lisboa, e foi rebocada pelo pessoal da EMEL. É isso.

Começo a questionar-me se toda esta história dos erres pelos guês não será no fundo uma grande metáfora da minha vida recente. Uma epifânia iluminada na forma duma narradora disléxica!

E se for eu o elemento estranho no meio de tudo isto? E se for eu o érre que não se adapta num mundo de guês?

Eu: Peço desculpa, mas têm horas que me digam?

Senhoga 1: São quatgo e tguinta e tguês..

Eu: Ah! Obrigado!

...

Senhoga 2: Guepagaste? Este tgoca os “guês” pelos “erres”..

Senhoga 1: Guepaguei! Que cgomo! (risos)

terça-feira, 14 de julho de 2009

T2 para 3.

Amor a dois, sexo a três.

Isto traduzido para francês escreve-se ménage-à-trois, e sim, depois de não-sei-quantas entradas no blog do Homem com Cão vamos finalmente falar de sexo!

Confesso que pensei para mim próprio bem se calhar é melhor introduzir esta temática senão vão pensar que és gay! Digo isto porque no universo dos homens com cão as coisas são muito simples.

Por exemplo, numa conversa entre dois homens com cão, se um deles não fala de sexo ao final de 5 minutos então é um gajo tímido.

Simples.

Mas se o mesmo indivíduo continua a não falar de sexo ao final de 10 minutos, então é de certeza mais gay que o Elton John. Só pode.

(ao final de 3 minutos..)

Gajo 1: .. e lá no meu escritório é que se ‘tá bem.. Tenho lá uma gaja com um par da mamas que é uma lô-cu-ra!

Gajo 2: Pois eu não tenho nada disso, mas ontem montaram uma fotocopiadora nova no piso 2!

Gajo 1: Uma fotocopiadora nova.. Ouve lá?! Tu és um bocado tímido não és?

(ao final de 8 minutos)

Gajo 1: .. e a gaja dobrou-se toda para apanhar o agrafador e não estás bem a ver, aquele rabo todo redondinho ali à minha frente!

Gajo 2: Pois.. Nós estamos em contenção de custos e retiraram-nos os agrafadores..

Gajo 1: Ouve lá?! Tu és um bocado abixanado ou é impressão minha?!

Gajo 2: Eu?!

Gajo 1: Pshtaa! Não me toques q’ainda me passas qualquer coisa!

Simples, portanto.

Voltando à vaca fria – em francês la vache frois, embora neste caso o estrangeirismo fique claramente a perder -, o sexo a três está a subir de interesse não só entre os homens que continuam a perseguir o El Dourado – estar com duas mulheres em simultâneo mesmo sabendo que mal dão para uma -, como entre as mulheres, e esta é que é a novidade.

Independentemente das razões – rotina, álcool ou simplesmente porque a mulher do vizinho é melhor que a minha -, o sexo a três parece ser cada vez mais politicamente correcto.

Aquilo que era considerado perverso, ou até mesmo um comportamento desviante há anos atrás, é agora uma prática social liberalizada e enquadrada por um novo conjunto de regras éticas.

Há anos atrás quando dois casais discutiam pormenores da sua vida íntima, o pináculo da loucura era admitir que faziam sexo no carro! Ou num sítio público onde se calhar pelo menos uma pessoa pode ter visto qualquer coisa ao longe. Uuuuh..

Casal 1 dos anos 80: Então e digam lá.. O que é que vocês, seus doidos, gostam de fazer?

Casal 2 dos anos 80: Nós.. Ainda há dias.. Fizemos dentro do carro, na praia! Uhhh!

Casal 1 dos anos 80: A sério??! E não tiveram medo que passasse alguém?!

Casal 2 dos anos 80: Era de noite e a praia estava deserta, mas passou um barco ao fundo!
Sonoooo..

Hoje em dia tudo está diferente.

Loucura é dizer que se esteve com a namorada no meio de 50.000 pessoas num festival de rock enquanto uma banda qualquer estava a tocar, ou num domingo à tarde na praia com água pela cintura.

Fetiche já não passa por fazer numa casa-de-banho dum centro comercial, mas no sofá duns amigos durante uma festa, numa cabine dum peepshow com a stripper a ver, ou com outro casal no mesmo sítio.

Os tempos são outros e o que era censurado há anos atrás é hoje em dia mais ou menos natural atendendo à cada vez maior liberalização sexual duma sociedade que foi, até aqui, conservadora e de bons costumes. Pelo menos fora de portas.

E é neste contexto que surgem os trios, mas é também chegado aqui que nos deparamos com um problema assaz perturbador. Os homens com cão querem e as mulheres com gato aparentemente também. Mas será que querem a mesma coisa?

Conselheira Matrimonial: Já ponderaram a possibilidade de introduzir uma 3ª pessoa na vossa relação?

Marido visivelmente entusiasmado com a ideia: Oh Dra. eu acho que isso pode resultar sabe?

Conselheira Matrimonial: Penso que pode ser uma solução, sim.. Mas depende de consentimento mútuo.

Marido ainda mais entusiasmado com a ideia: Mas claro que nós aceitamos! Até já estou mesmo a ver a pessoa ideal para isto, aquela nossa vizinha do 2ºB, aquela doida!

Conselheira Matrimonial: Eu disse uma 3ª pessoa. Pode ser um homem.

Marido já não muito entusiasmado com a ideia: Oh Dra. (cooff cooff!) isso está completamente fora de hipótese. É que nem se coloca a questão.

Conselheira Matrimonial: Mas porque não?

Marido visivelmente irritado com a ideia: Porque não! Porque na minha mulher ninguém toca! Olha agoooora..

Certamente não terá passado despercebido a ninguém o insuspeito questionário alinhado em rodapé ao longo das últimas semanas.
Perguntava então qual é a fantasia mais recorrente das mulheres com gato, avançando 4 possibilidades: estar com o namorado e com outra mulher; estar com o namorado e com outro homem; aventurar-se no swing; ou ficar simplesmente a ver.

O resultado foi elucidativo. 82% de mulheres com gato responderam que a fantasia mais recorrente é estar com o namorado e outro homem. Ou seja, de todas as mulheres que responderam a este questionário e que querem realizar este desejo, apenas 18% estão dispostas a fazê-lo com outra mulher.

(importa fazer uma pausa para dizer que neste preciso momento já chegaram aqui ao blog 32 mensagens de homens com cão, a pedirem o e-mail desses 18% que estão dispostas a fazê-lo com outra mulher...)

Olhando para isto com alguma seriedade, no post anterior ficamos a saber que 68% das mulheres entre os 25 e os 49 anos vivem sozinhas por opção, e neste acabamos de ser esmagados com uns esclarecedores 82% de mulheres que acham que não chegamos para as encomendas.
É o desespero.

Aparentemente as mulheres com gato não só não querem viver connosco, como também não querem f**** connosco. Passa-me à memória o livro do Miguel Esteves Cardoso, O Amor é Fodido.

Cai por terra o El Dourado dos homens com cão.

Para a maior parte de nós este vai continuar a ser o desejo maior que todos os anos pedimos ao pai natal.

Humm.. É talvez por isto que tantos de nós ainda acreditam no pai natal.