quinta-feira, 21 de junho de 2012

O Efeito AXE ao Contrário


Quem como eu viveu a adolescência em finais dos anos 80 princípio dos anos 90, pode hoje orgulhar-se de ter vivido porventura a melhor década dos últimos 40 anos.

Foi a madrugada da revolução tecnológica que mudou o mundo e quem a viveu fê-lo na primeira pessoa.
Claro está que viver sem internet, sem televisão por cabo, sem telemóveis e sem facebook é hoje em dia uma perfeita agonia, mas era assim que se vivia em Portugal há 22 anos atrás, e eramos felizes.

Na altura e com 16 anos de idade, a minha preocupação não era anunciar ao mundo que estava in a relation com uma pessoa diferente todos os meses, ou desarranjado dos intestinos, por exemplo (um tipo de acontecimento social que se repete ocasionalmente no facebook, e que se calhar até merecia um evento).
Não. Entre outras, uma das minhas grandes preocupações era por exemplo garantir que o Clearasil não acabava lá em casa. Isso sim era importante.
Até porque no meu entendimento só existiam duas coisas que podiam ajudar-me a deixar duma vez por todas a minha imberbe adolescência, e tornar-me finalmente num Homem com “H” maiúsculo… (o mesmo é dizer ter sexo pela primeira vez): o Clearasil e a Samantha Fox.
Não é que a Samantha estivesse ali à mão, mas aquela loira - há que dizê-lo com frontalidade -, mesmo sem saber fez muito por mim e por toda uma geração de nerds da bombazina:
this is the night, this is the night, this is the time, we’ve got to get it right.
C’a bom.
Infelizmente eu e a Samantha Fox nunca got it right. A loira que devia ter o mesmo hair-dresser que os Europe desapareceu depois de lançar o single “touch me”, e pese embora aquele ar de comilona insaciável tenha ajudado a preencher muitas noites de prazer solitário, foi no Clearasil que depositei as maiores esperanças.
Em stick, claramente mais eficaz na luta contra as borbulhas e o acne rebelde.
Aliás, eu usei tanto Clearasil na primeira metade dos anos 90 que 20 anos depois ainda apareceram resíduos numas análises que fiz ao sangue.
No capítulo da cosmética e bem-estar os anos 80 terminaram com alguns produtos lendeários. Leram bem. Estou a referir-me ao Quitoso, magnífico repelente de piolhos e lêndeas.
No entanto outros havia que não sendo na sua essência produtos antiparasitários, surpreendentemente também matavam piolhos e lêndeas, fosse por asfixia ou por envenenamento.
Quem não se lembra por exemplo do Brut ou do Drakkar Noir, essências míticas que serviram de inspiração a outros produtos similares como o Raid, o Dumdum ou o mesmo o Baygon.
Lembro-me duma vez em que num acto próprio de alguém que está desesperado, cheguei a tomar literalmente banho em Brut, mas infelizmente a marinada acabou por surtir o mesmo efeito nas mulheres com gato que o Baygon provoca nos bichos voadores lá de casa. Mata-os bem mortos.
Não, isto assim não vai lá, pensei eu.
 
 
Brut e Drakkar Noir foram grandes no seu tempo, mas nunca chegaram ao patamar de semi-Deus ao qual foi elevada “A” essência que simbolizava o homem ideal no ocaso dos anos 80: sim, estou a falar do Old Spice.
Ehpa lembro-me de ver o anúncio do After Shave Lotion pela primeira vez e a reacção foi mais ou menos esta:
Aahhh… Este tipo deve ter sexo com muitas mulheres, aí umas duas ou três à vontade.
Duas ou três por ano, convém dizê-lo. Naquela altura não me passava pela cabeça ser possível ter sexo com duas ou três mulheres ao mesmo tempo.
 
 
O certo é que cada vez que via o surfista do Old Spice sair dum tubo perfeito em slow motion, acompanhado pela Carmina Burana de Carl Orff, até me arrepiavam os pêlos dos braços perante a perspectiva de começarem a cair aos meus pés mulheres em barda como cachos de bananas. E eu que adoro bananas.
Na altura tinha a ideia de que o Old Spice era de tal forma fulminante com o sexo oposto, que o simples gesto de passar com um daqueles frasquinhos por uma caixa do Pão de Açucar, era quanto baste para que a rapariga da caixa pensasse: meu grande sacanita vais ter sexo com alguém e não é comigo.
Só havia um problema. Naquela altura não tinha barba, mas não seria esse pequeno pormenor que iria impedir que finalmente triunfasse entre as mulheres com gato, qual toureiro aclamado pela multidão no final duma bela faena. E eu bem que estava necessitado duma boa faena nessa altura.
Infelizmente só usei Old Spice uma vez e da mesma forma que o anúncio ilustrava, banhando a face abundantemente após aparar os pêlos ralos do meu projecto de barba.
Da minha experiência com o perfume guardo algumas recordações como o ardor atroz que senti poucos segundos depois de ter mergulhado as borbulhas no bálsamo, ou mesmo o vermelhão persistente que durante alguns dias foi confundido com uma doença de pele, e à custa disto a minha virgindade continuou sem fim à vista, como um barco ferido de morte à deriva no mar.
Como disse, só experimentei a essência do homem uma vez, mas o mesmo frasco de Old Spice foi-me bastante útil quando 11 anos mais tarde usei-o como moeda de troca por uma caixa de charutos Romeu & Julieta, em Cuba.
O sentido da vida é por vezes misterioso.
Do Old Spice até aos dias de hoje muita coisa aconteceu. Eu cresci, eventualmente comecei a namorar, mais tarde casei com a minha primeira namorada, tive um filho, fui muito feliz, depois um pouco menos, e depois divorciei-me. É o percurso.
Pelo meio também caíram o muro de Berlim, as duas torres do World Trade Centre, e alguém se lembrou de meter queijo fundido no rebordo das pizzas, os 3 factos históricos que gostaria de realçar entre 89 e 2012.
Hoje em dia o Old Spice continua à venda nos escaparates de algumas superfícies comerciais (vi há dias um stick vermelho chamado Kilimanjaro), mas a verdade é que a “marca do homem” há muito foi relegada para 2º plano, não resistindo à impiedosa marcha do tempo que trouxe ao mundo da higiene pessoal masculina desodorizantes com aloé vera, pepino, coco, kiwi, papaia, e toda uma panóplia de legumes e frutas tropicais que nunca pensamos sequer comer com regularidade, quanto mais usar debaixo dos braços durante 16 horas.
Penso cá para mim, o que diria o surfista viril dos anos 80 quando confrontado com uma delicada essência bloqueadora de maus odores, à base de aloé vera e abacate, promovida na tv não com a galopante cantata de Carl Orff, mas com uma melodia suave e harmoniosa, que parece ter saído da banda sonora do Rei Leão?
Cambada de mariconços besuntados em cremes sem álcool, com proderma, extra-hidratantes, à base de abacate e frutas exóticas pah!
No mínimo seria uma coisa assim.
Porém nem tudo é mau. Os homens com cão dos tempos modernos podem gabar-se de terem hoje à sua disposição o primeiro desodorizante que assumidamente pela própria marca, provoca nas mulheres com gato um desejo incontrolável de ter sexo com o primeiro gaijo que encontram na rua. E é tudo legal. É o Efeito Axe!
Caramba. Isto teria sido espectacular e dava um enorme jeito sim mas lá atrás nos anos 80, quando eu era um alegre otário de aparelho nos dentes. Mas não era um aparelho qualquer. Era um daqueles à moda antiga que pareciam ter sido construídos com o ferro que sobrou da ponte 25 de Abril.
Para completar o ramalhete cabelo sem gel impossível de pentear, óculos com lentes que não sendo nem totalmente transparentes nem totalmente escuras faziam de mim uma espécie rara de cromo que calçava sapatos de camurça com berloques, vestia calças de bombazina impecavelmente vincadas, e camisas xadrez abotoadas até ao pescoço.
Muito obrigado mãe por esta forma de vestir que só foi moda entre os lenhadores no Quebec, e mesmo assim não sei.
Sacar uma miuda neste aparato e com a cara cheia de borbulhas, isso sim seria um verdadeiro teste aos efeitos do desodorizante que alegadamente anda por aí a espalhar o caos e faz cair do céu anjas prontinhas para a salganhada.
Sejamos francos, naquelas condições em que me apresentava se alguma mulher com gato sentisse uma vontade incontrolável de ter sexo comigo só poderia ser:
1.      um desequilíbrio hormonal e eu ia a passar.
2.      obra de intervenção divina.
3.      uma tentativa desesperada de manter viva a espécie Humana entretanto dizimada após um ataque global duma raça alienígena hostil armada com pistolas de raios.
Das 3 hipóteses a única viável seria um desequilíbrio hormonal, isto porque tanto quanto sei nos últimos 22 anos as probabilidades de Deus descer à terra foram quase tão remotas como acontecer um desembarque de extraterrestres em Cacilhas.
E em Cacilhas porquê? Porque depois iam de cacilheiro até ao Terreiro do Paço e tomavam Lisboa de assalto, isto claro está se a Transtejo não estivesse em greve nesse dia. Caso contrário adiava-se a invasão.
Nessa altura - nos anos áureos em que eu era um cromo de colecção - o Efeito Axe teria sido útil sim, no entanto passados todos estes anos dei por mim a olhar para uma lata de Axe Anarchy e a pensar: ehpa, será que isto resulta mesmo?
E a resposta é: não. E porquê?
Hoje, ao contrário do que acontecia há 22 ou 23 anos atrás, até um coxo consegue sacar uma miúda em plena meia-maratona de Lisboa.
Coxo: então o que achas? Sou ou não sou igualzinho às fotos??
Miúda: és mais ou menos.. Mas tens uma forma estranha de correr…
A internet e as redes sociais mudaram completamente o ângulo da questão. Nos dias de hoje a dificuldade já não tem muito a ver com o sacar, mas sim com o manter. Manter a pessoa próxima, manter a pessoa interessada. Manter o relacionamento no fundo.
Ora, manter ou fixar é exactamente o que diferencia um bom perfume dum desodorizante de supermercado. Por muito interessante que seja a essência num primeiro contacto, o poder fixante dum Axe nunca será igual a um qualquer perfume para homem de Jean Paul Gaultier, Carolina Herrera ou Tom Ford (só para dar alguns exemplos de perfumes que gosto, e isto nada tem a ver com o facto do meu aniversário estar cada vez mais próximo…).
Posto tudo isto, e depois de tantos relacionamentos – perdi a conta -, vejo com alguma preocupação a possibilidade de passar a ser confundido com lata de AXE, num qualquer escaparate dum supermercado.
Mulher com Gato às Compras 1: Olha que frasquinho tão giro!
Mulher com Gato às Compras 2: Gosto da embalagem.
Mulher com Gato às Compras 1: Já viste, dá até vontade de apertar.
Mulher com Gato às Compras 2: Aperta lá que não está ninguém a ver!
(pffffffft….)
Mulher com Gato às Compras 2: Uuuh.. Aiii que cheirinho tão bom…

Mulher com Gato às Compras 1: Realmente.. Olha e aquele teu amigo como está?

Mulher com Gato às Compras 2: Qual querida? Cheira mesmo a gajo (risos).
Mulher com gato às Compras 1: O professor de natação…
Mulher com Gato às Compras 2: Ai nem me fales, cheira tão bem aquele homem!
Mulher com Gato às Compras 1: Olha vamos ali que eu preciso de queijo.
(E a lata fica mais uma vez no expositor à espera de nova borrifadela…)
Alguém me diga se existir um Efeito Axe, mas ao contrário por favor.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Nova Sondagem!




Não, ainda não é o novo post de Dezembro! Mas fica a garantia de que não irá tardar, e até ao Natal haverão seguramente novidades no Blog. Fiquem atentos!

Atenção mulheres com gato, há uma nova sondagem no blog.
Depois de 93% das leitoras do Homem com Cão terem confessado que em 2011 queriam fazer sexo a 3 com o namorado e uma amiga, agora chegou a altura de descobrirmos os resultados.

Vamos lá responder com honestidade. A sondagem está em rodapé no Blog do Homem com Cão.

sábado, 22 de outubro de 2011

O Amor é Lixado com "F" grande

Joana, mulher resolvida, 36 anos, sozinha e disponível, procura homem simpático, solteiro e de mente aberta para relacionamento casual e sem compromissos.


Há relativamente pouco tempo encontrei este anúncio numa rede social, assim tal e qual, e confesso que a natureza descomplexada do mesmo chegou para despertar a minha atenção.

Motivado pela curiosidade e claramente surpreendido pela clareza de ideias desta mulher com gato, resolvi pesquisar um pouco mais embora mantendo algumas reservas, não fosse este um completo paradoxo na complexidade emocional do mundo feminino, do qual palavras como relacionamento casual e sem compromissos raramente fazem parte.



O anúncio pareceu-me bastante credível, tanto que vim depois a saber que esta mulher com gato é de Coimbra, tem dois filhos com idades diferentes abaixo dos 8 anos, e não podendo contar com a ajuda do pai para quase nada, desdobra-se em dezenas de tarefas diárias das 7.00h às 22h, entre preparar mochilas, lanches e roupa para as actividades, acordar, vestir e dar o pequeno-almoço aos meninos, que depois seguem de carro para a escola.

E tudo isto acontece antes das 8.30h, hora em que Joana se demite do papel de mãe para assumir funções executivas como responsável de marca duma empresa com múltiplas lojas abertas nos principais centros urbanos do país.

Até às 18.30h o dia está ocupado, e depois disso recomeça a correria. A rotina nem sempre é a mesma e de 2ª a 6ª divide-se entre body-combat no ginásio às 3ª’s e 5ª’s, e levar o filho mais velho ao futebol às 4ª’s e 6ª’s, antes de ir buscar o mais novo ao ATL ao final do dia, sempre com o Blackberry ao seu lado, que nunca desliga.


Depois vem o banho, os trabalhos de casa, e o jantar. À noite, depois da brincadeira, do Peso Pesado, e com os miúdos já na cama, é altura de rever relatórios diários e preparar a primeira reunião da manhã seguinte.


O pouco tempo que resta divide-o entre o alienado Dr. House e o sorumbático Horatio Caine, duas personagens que preenchem quase todas as medidas do ideal masculino de Joana, vá-se lá saber porquê. Um é anti-social e manco, o outro não tira os óculos escuros nem para tomar banho de manhã, e tem o hábito irritante de olhar para o lado antes de terminar uma frase.



Confirmam-se as minhas suspeitas. No que diz respeito aos homens, as mulheres são de tal forma labirínticas que nem um rato de laboratório consegue encontrar a saída. É a total ausência de critério.

Talvez por isso, e por saber que dificilmente vai encontrar um médico manco com a pinta do House, ou um investigador criminal com o misticismo do bom Horácio, Joana optou por simplificar as coisas, aderindo à nouvelle vague do relacionamento interpessoal: o easy dating.



Na Inglaterra chama-se sex-on-demand e está a provocar uma autêntica revolução sexual. Longe vão os tempos em que Margaret Thatcher comandava o reino unido com punhos de ferro, e com um ar ainda mais austero que o memorandum da troika para a Grécia.

Os tempos são outros, e ao contrário de Thatcher que aos 86 anos ainda deve estar para saber o que é um bom orgasmo, na Inglaterra a inversão do papel dominante está a acontecer à conta de … sexo. Muito sexo para ser mais exacto.

E tudo acontece nas redes sociais, onde à distância dum click as mulheres com gato inglesas conseguem aceder aos mais variados menus de degustação sexual, escolhendo entre dezenas de candidatos aquele que melhor parece ser capaz de saciar o apetite, em função da hora do dia, disponibilidade, robustez física versus rendimento per capita, etc.. E quanto maior for a robustez da capita melhor.

Assim em vez da tradicional pausa para o chá das cinco com biscoitos de manteiga, as britânicas deliciam-se agora com algo que pode ser tão ou mais relaxante e retemperador que o chá: um fantástico orgasmo. Um ou vários dependendo do biscoito que acompanha o “chá” neste caso.



E nada disto envolve prendinhas. É tudo feito de comum acordo seguindo uma lógica tu tens algo que eu quero, e eu tenho algo que te faz falta.

Nós por cá ainda não estamos propriamente à vontade com este tipo de vida libertina. Reflexos duma sociedade conservadora que na altura do Salazarismo ia à missa aos Domingos de manhã com a mesma candura imaculada com que frequentava os bordéis legalizados aos Sábados à noite. Vivíamos bem com Deus e com o diabo. Eramos uma aldeia de roupa branca, e como longe dos olhos o coração não sente, casava-mos para a vida toda com a bênção de Salazar e da igreja.

Este é um estigma que ainda nos persegue. Hoje já não há Salazar mas continuamos a brincar às escondidas com a moralidade.



Os ingleses – ou as inglesas melhor dizendo -, encontraram no sex-on-demand uma forma simples de resolver o problema. Se lhes apetece a meio da manhã basta clicar e pedir para comer a meio da tarde. Sem constrangimentos, cafezinhos ou sms’s no dia seguinte. No fundo é como o anúncio dos Ferrero Rocher:

Madame: Ambrósio, apetece-me algo…


Ambrósio: Sim senhora. Tomei a liberdade de tirar a roupa senhora.


Madame: Ohh! Bravo Ambrósio!



E pronto, a madame lá comia o Ambrósio com a mesma facilidade com que se come uma caixinha de Ferreros Rocher.



Isto por cá não é assim tão simples. Na generalidade as mulheres com gato portuguesas são muito parecidas com a madame do anúncio dos Ferreros. Apetece-lhes algo. Mas por muita vontade que tenham de comer o Ambrósio logo na primeira voltinha de limousine, isso raramente acontece porque ia parecer mal. E porque ia parecer mal muitas vezes não falamos de tudo com a pessoa que divide a nossa cama. Afinal o que ele iria pensar de mim.



Por muito caricato que possa parecer este pudor patológico não é um exclusivo das mulheres com gato em Portugal.



Um grande amigo meu acredita piamente que mulher para casar com ele não pode fazer ou gostar sequer de sexo oral. De sexo anal então nem se fala. Diz ele que se ela gostar é porque já fez com outros, e sabe-se lá por onde andou com a boca.



Este é o mesmo amigo que queria porque queria namorar com uma miúda virgem, seguindo a mesma lógica do sabe-se lá por onde andou com a coisa.



Quando finalmente encontrou uma não demorou nem 1 mês para começarem os desabafos e os queixumes. Afinal aquilo não tinha piada nenhuma porque ela não sabia o que fazer, não tinha iniciativa, e era tudo devagar e devagarinho com muito amor e carinho. No fundo era como a comida biológica, em teoria uma óptima ideia, na prática uma grande merd#.



Ou seja faltava-lhe aquela putice que qualquer homem aprecia numa mulher mais experiente. Dito de outra forma, para quê comer um bife de soja que não sabe a nada quando nos podemos lambuzar com uns deliciosos secretos de porco preto? É por aí.



Este meu amigo é um paradoxo e talvez um mau exemplo, mas é ainda assim um exemplo deste Portugal pequenino.



Na Inglaterra os anúncios pessoais em redes sociais de cariz não profissional vieram em certa medida resolver este problema. Elas têm o que querem, quando querem e como querem, enquanto que eles… Bom, eles estão basicamente a borrifar-se para o resto porque um gajo é um gajo e há sempre espaço para uma refeição grátis. Aqui, na Inglaterra ou no Suriname.



Além do mais ninguém no seu perfeito juízo vai apaixonar-se por uma fulana que publica algo do género:



procuro machos activos que me queiram comer como uma cachorrinha.


Assina: kadelinha_komilona.



Não quero com isto dizer que um gajo não goste de encontrar na sua gaja um pouco de kadelinha_komilona aqui e ali, e quem disser o contrário ou está a mentir com todos os dentes, ou então é gay.


O que acontece muitas vezes é que não falamos disto, nem elas falam connosco. Pelo pudor patológico que nos atormenta tudo o que foge à dita normalidade, ou simplesmente por receio de estragar algo que demorou tanto tempo a construir.



E até se percebe porquê. Que se chegue à frente o primeiro gajo que estando genuinamente interessado numa mulher com gato, não pense duas vezes quando à pergunta qual é o teu maior fetiche? seja surpreendido pela resposta: ser comida por dois gajos. E já agora que se chegue à frente a mulher que nas mesmas condições tenha a coragem de responder com honestidade.


Paradoxalmente a maior parte dos casais queixa-se da rotina quando questionados sobre o porquê da separação.

Mariana: Oh Bernardooo…


Bernardo: Diga querida..


Mariana: Oh querido já estamos juntos há tantos anos... Sabe o que me apetecia assim para quebrar a rotina?


Bernardo: Diga querida…


Mariana: Oh.. Você se calhar não vai gostar Bernardo…


Bernardo: Oh querida diga lá..


Mariana: Oh Bernardo, gostava que você me chamasse nomes feios quando ‘tá comigo, ‘tá a ver?


Bernardo: Nomes feios? Mas que nomes feios querida?


Mariana: Ai oh Bernardo,chame-me aquele nome que começa com “p”..


Bernardo: Com “p”? Você quer que lhe chame pindérica?


Mariana: Ai c’horror! Oh Bernardo é aquele nome que começa com “pu” e acaba em “ta”, ‘tá a ver?! Você também não percebe nada, que maçada!


Joana, mulher resolvida, 36 anos, sozinha e disponível, procura homem simpático, solteiro e de mente aberta para relacionamento casual e sem compromissos.

E porquê? Porque o amor às vezes é mesmo uma f###.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Mais Vale Sobrar do que Faltar





Fui há dias surpreendido por uma notícia curiosa divulgada pelo Correio da Manhã, mais virado para este tipo de fait-divers.


Um estudo tornado público por um grupo de urologistas da Coreia do Sul veio revelar que pode existir uma relação directa entre a mão direita, e o tamanho do pénis.


(…)


Vá, façamos uma pausa para que os leitores do Homem com Cão possam olhar de soslaio para a sua mão direita. Já está?


Primeiro que tudo debrucemo-nos sobre os prós e os contras deste estudo ter sido levado a cabo na Coreia do Sul.


Sendo uma das economias mais fortes do mundo, e um dos países mais avançados tecnologicamente, qualquer estudo anunciado na República da Coreia tem forçosamente de ser levado a sério. Porém, é sabido que os asiáticos são em média o povo com os pénis mais pequenos do mundo, e meus amigos contra factos não há argumentos. E o facto é que os sul-coreanos nesta matéria não têm mesmo muitos argumentos.


Mas gabo-lhes o afoito. Apresentar um estudo deste género na Coreia do Sul é hoje em dia quase o mesmo que o governo da Grécia fazer uma dissertação sobre o endividamento público. Duvido que exista uma grande base científica, mas pelo menos são originais.


Talvez porque têm espelhos em casa, e porque acharam que não valia a pena entrevistar muita gente, os urologistas sul-coreanos analisaram apenas 144 homens com mais de 20 anos, para chegarem à conclusão de que a mão direita é de facto reveladora do tamanho do instrumento.

De acordo com Tae Beom Kim, coordenador da investigação, a testosterona pré-natal exerce a mesma influência sobre a formação dos dedos e do pénis. Assim, quanto menor for a diferença entre o dedo anelar e o dedo indicador da mão direita, maior é o pénis.


(...)


Nova pausa porque neste momento os homens com cão estão de certeza a olhar para a mão direita. Outra vez. Não vale a pena puxar pelos dedos porque isso já não cresce mais, ok?


De facto de todas as variáveis analisadas só o tamanho dos dedos estava relacionado com o tamanho do pénis, e Beom Kim acredita que futuramente é para o indicador e anelar direito que as mulheres com gato terão de olhar quando quiserem antecipar o que lhes poderá reservar o destino.


Cabe a cada mulher com gato pronunciar-se sobre esta matéria. Há quem prefira não correr riscos, mas por outro lado haverá igualmente quem não dispense o friozinho na barriga do efeito Kinder Surpresa na altura de puxar pelos shorts. É um brinquedo, é uma surpresa e até pode ser de chocolate. Depende do sabor do preservativo.


É mais ou menos o mesmo que escolher independentes para os ministérios e secretarias de estado. Nunca se sabe muito bem o que vai sair dali, e neste aspecto Pedro Passos Coelho andou a distribuir ovos Kinder como um autêntico coelho da páscoa fora de época. Tal como Jorge Jesus que depois de ter levado dois aviões de jogadores para o estágio do Benfica na Suíça, deve andar com aquele friozinho na barriga sem saber se dali vai sair algum que se aproveite, ou não.


Para as mulheres com gato que não andam a prestar atenção ao tamanho dos dedos, é exactamente o mesmo friozinho na barriga que sentem segundos antes de puxarem os shorts rumo ao desconhecido. Não sabem se dali vai sair algo que se aproveite ou não, e clubismos à parte há sempre quem invoque o nome do treinador do Benfica nestas situações. Para o bem ou para o mal.

Há no entanto excepções. Por exemplo, na vizinha Coreia do Norte as mulheres com gato não chamam de certeza por Jesus, primeiro porque não sabem quem é o treinador do Benfica, depois porque Jesus não é o nome do filho de Kim IL Sung, o eterno presidente e Deus lá do sítio.

Mas também não devem chamar por ninguém porque como não há liberdade de imprensa e a internet é controlada pelo Estado, as norte-coreanas vivem felizes e contentes com os 9,66 centímetros correspondentes ao tamanho médio dum pénis erecto naquela zona do globo.

E como não há pacotes turísticos em conta para Pyongyang, é pouco provável que um pénis erecto naquela zona do globo seja de outro tipo qualquer que não dum norte-coreano.

Imagine-se a revolução cultural que não seria se um congolês tivesse uma erecção na Coreia do Norte. Os 17,93 correspondentes ao tamanho médio dum qualquer nativo do Congo, iam parecer um míssil balístico quando comparados com os 9,66 que as norte-coreanas foram ensinadas a ver como uma dádiva suprema do presidente eterno Kim IL Sung.

Provavelmente os quase 18 centímetros dariam para entreter duas ou três norte-coreanas durante algumas horas, antes delas perceberem que afinal há vida para lá da Coreia, mas os líderes militares estão atentos a este perigo e ao primeiro avistar dum congolês certamente iriam disparar a matar, para logo a seguir declararem guerra à República Democrática do Congo. Só por causa das coisas.

Nós por cá também somos muito preocupados com o tamanho das coisas. O tamanho da casa, o tamanho do carro, o tamanho do telemóvel, mas especialmente o tamanho do coiso.

E graças ao estudo desenvolvido pelos especialistas da Coreia do Sul temos agora esta ferramenta ao nosso dispor. Não precisamos mais de lançar um olhinho para o coiso do gajo que está ao nosso lado no chuveiro do ginásio, por exemplo.

Isto parece ridículo (e é mesmo), mas acontece muito frequentemente, e é popularmente conhecido entre os sexólogos como o síndrome do balneário, uma competição narcisista entre homens que definem a sua masculinidade em função do tamanho dos pénis.

É por estas e por outras que nunca tomo banho em balneários, além do mais não quero envergonhar ninguém que levanta 5 vezes o meu peso na prensa vertical.

Para nós, homens com cão, esta é uma preocupação antiga, e apesar de todas as mulheres dizerem que o tamanho não importa, eu ficava lixado se me perguntassem se tenho família na Coreia. E qual é o homem que não gostaria de ouvir Oh meu Deus! Tu nasceste no Congo?!

Em valores médios não estamos assim tão longe como os 5.410 kms que distam Lisboa de Kinschasa. De acordo com um estudo publicado em 2007 pelo sexólogo Nuno Monteiro Pereira, o tamanho duma erecção dum genuíno português representa qualquer coisa como 15,82cms. É um tamanho muito respeitável, e só a título de curiosidade é bem mais que os espanhóis (13,85), muito mais que os tipos da Moodys (12,90), e ligeiramente acima dos brasileiros (15,70).

Admito que para as mulheres com gato o tamanho do pénis possa parecer uma discussão narcísica, empolada pela indústria pornográfica que nas últimas décadas ajudou a mitificar falos do tamanho dos enchidos do Fundão, quando podia mostrar mulheres a deliciarem-se com orgasmos múltiplos enquanto brincam com um normalíssimo pénis de 16cms, não congolês portanto.

Teria sido bem mais saudável e instrutivo. Mas a verdade é que se um casal português subscrever o canal Venus para apimentar a sua vida sexual, o mais certo é a mulher com gato ter a mesma reacção que uma norte-coreana teria se descobrisse que há vida para lá dos 9,66.

E lá vinha o nome do treinador do Benfica à baila novamente.

Um gajo está ali com a sua gaja a ver um filmezinho, e passados 2 ou 3 minutos ouve um ai Jesus, e começa logo a sentir-se como se fosse o único gajo do prédio que não nasceu em Kinschasa.

E é nestas alturas que nós, homens com cão, costumamos ser reconfortados com a ideia do deixa lá querido, é pequenino mas é trabalhador.

Meus amigos, desenganem-se. O que elas não dizem a seguir mas pensam é: olha é pena é fazer greve tantas vezes.

A ideia de que o pequenino e trabalhador é suficiente para satisfazer o imaginário erótico duma mulher, é tão falsa quanto ouvir falar o Sócrates há uns meses atrás sobre a saúde financeira do nosso país, também ele pequenino e trabalhador. Meses depois disso aí está a ajuda externa porque o país pequenino e trabalhador simplesmente não deu conta do serviço.

E qual é o homem com cão que quer ajuda externa quando toca ao seu coiso?

A verdade é que para as mulheres com gato o tamanho importa mesmo, e não é só o comprimento, é sobretudo o volume que ocupa também. Qualquer erecção abaixo dos 13 ou 14 centímetros e já começa a ser preciso muita originalidade e muito amor para fazer com que a coisa e o coiso funcionem.

Afinal o estudo dos especialistas sul-coreanos não é assim tão descabido quanto isso, e quando ouvirem qualquer coisa do género “Ohh! Tens umas mãos tão lindaaas! Posso ver melhor?” preparem-se porque estão prestes a espreitar para dentro das vossas calças.


E como dizia a minha avó: mais vale sobrar do que faltar.

sábado, 25 de junho de 2011

Soluções de Água Quente

O meu avô sempre me disse, tu devias aprender era um ofício em vez de ires para doutor. A recomendação foi de tal forma persistente durante o meu período académico, que não foi difícil chegar a um ponto em que eu já conseguia antecipar o momento em que lá íamos de novo falar dos ofícios, porque na ideia dele trabalho nunca vai faltar a electricistas, canalizadores ou até mesmo àqueles fulanos que arranjam os estores.

E pese embora o meu avô nunca tenha sequer hesitado financiar os meus estudos, a verdade é que uns anos largos depois da sua morte, apareceu no meu caminho o tal mestre dos ofícios que ele tanto apregoava, a propósito dum esquentador que durante meses a fio insistiu em apagar-se a meio do banho.

Nesta altura do ano (n.d.r. verão) o transtorno nem seria assim tão grande, mas na força do inverno às 7h da manhã, ir da banheira até à cozinha com espuma nos olhos e com 7 graus positivos, para depois ficar ali uns 10 minutos a gelar e a pedir liga, vá lá ligaaaa como se o esquentador tivesse vontade própria… Bem, é coisa para deixar um tipo a pensar seriamente na vida.

Raios partam, deve ter enviado este fulano só para me atormentar a cabeça! Falo claro está do senhor dos esquentadores. E não sabendo ao certo como catalogar a profissão do senhor dos esquentadores, vamos chamá-lo de Bob dos Esquentadores.

O Bob dos Esquentadores era um fulano de boa estatura, anafado, pessoa de muito alimento, dos que não dispensam o bom do bitoque na hora do almoço regado com um belo jarro de vinho tinto. De bigode farto, barriga proeminente a pender sobre o cinto das calças, e com aquele ar manhoso de quem está a tentar fazer passar-se por uma pessoa séria.

Como qualquer Bob que se preze, este também trazia um colete cheio de pequenas ferramentas, uma caixa com ferramentas ainda maiores, e um aprendiz de feiticeiro que, estou certo, não hesitaria em atirar-se pela janela do 2º andar ao simples estalar de dedos do mestre guru dos esquentadores.

E nem foi preciso esperar muito para que as palavras do meu falecido avô começassem a ecoar de novo na minha cabeça, como uma assombração:

Bob dos esquentadores: Uiiii… Tem este modelo?

Aprendiz: Uiiii…

Eu: Ui? O que quer dizer com ui?

Bob dos esquentadores: Oh chefe é que estes modelos costumam dar uns problemazitos..

Aprendiz: Pois costumam!

Eu: Humm.. Uns poblemazitos? Que tipo de problemazitos?

Bob dos Esquentadores: Já “le” digo, deixe-me só tirar aqui a tampinha…

(pausa)

Bob dos Esquentadores: Ehpa oh chefe, isto não está com muito bom aspecto. ‘Tá a ver o que eu “le” disse? Tsss…

Aprendiz: Tsss..

Eu: Não está? Então? – respondi, um pouco a medo.

Bob dos Esquentadores: Só assim sem ver o resto “digo-le” já que deve ter o sensor avariado chefe
– retorquiu de olhos arregalados por cima do bigode oleoso, enquanto acenava com a chave de fendas ajeitando as calças que mais pareciam um dique prestes a ceder ao peso da barriga.

Eu: O sensor.. – ou seja, em bom português começava a tornar-se evidente que ia deixar ali o cu e as calças.

Em menos de 5 minutos um parafuso e duas pilhas depois, veio o diagnóstico:

Bob dos Esquentadores: Chefe, é o sensor. Isto anda na ordem dos 60€, mais as duas pilhas. Quer que eu “las” meta e arranje o esquentadorzinho?

Eu: Pronto, arranje lá o esquentadorzinho.. – um tipo vai dizer o quê?

Bob dos Esquentadores: Então olhe eu “faço-le” isto tudo … deixe cá ver … e vão 3… mais 15… Eu “dou-le” aqui um jeitinho e fica tudo p’los 70€. Se quiser factura é mais IVA.

Toma lá fresquinho. 70€ com jeitinho, sem papéis e em menos de 5 minutos, para mudar duas pilhas – que eu paguei – e desapertar um parafuso. Proporcionalmente nem o Ronaldo deve ganhar tanto em menos de 5 minutos. E quem é que ficou a rir com tudo isto? Fácil. O Bob dos Esquentadores, o aprendiz, e claro o meu avô.

Depois de pagar, e já com o Bob dos esquentadores a caminho do merecido bitoque – aproximava-se a hora do almoço -, questionei-o se teria sido um valor justo a pagar para colocar duas pilhas, e afinar um sensor. A resposta deixou-me incapaz de contra-argumentar:

Depende se quer ou não continuar a tomar banho com água fria.

Talvez percebendo que estava resignado mas não convencido, o fulano ainda fez uma pausa e acrescentou:

Oh chefe, as pilhas até você podia mudar e eu só “le” cobrei o valor de custo, e a deslocação. Afinar o sensor é que não é p’ra todos, ‘tá a perceber?

Perfeitamente. O valor das coisas tem sempre de ser colocado em perspectiva. Por exemplo, só quem já por muitas vezes se sentiu como uma ervilha pré-congelada às 7h da manhã em pleno inverno, é que pode verdadeiramente valorizar a falta que faz ter um bom esquentador em casa, ou pelo menos um que funcione.

Da mesma forma só quem já experimentou aquele clik instantâneo entre duas pessoas sabe verdadeiramente como é o calor dum beijo, que poucos segundos depois faz-nos sentir a ferver por dentro e por fora, envolvendo-nos de forma viciante como a água quente quando percorre o nosso corpo.

No fundo, as relações entre homens com cão e mulheres com gato são assim, como os esquentadores inteligentes: quando funcionam a chama é instantânea. Como disse o poeta, é fogo que arde sem se ver. Duvido no entanto que ele estivesse apensar em esquentadores quando escreveu isto.

Quando não funcionam, na melhor das hipóteses sobra-nos os duches com água tépida que nunca serão suficientes para fazer esquecer que temos de fechar a torneira.

O único senão é que nas relações, ao contrário dos esquentadores, não há quem por nós consiga fazer seja o que for, quando o sensor simplesmente não funciona. E que jeito que dava ter um Bob dos esquentadores à distância dum telefonema.

Bob dos Esquentadores: Or’então diga lá o que se passa amigo!

Amigo: Não sei explicar, acho que não há clik.. Não há chama, percebe?

Bob dos Esquentadores: Ohhh amigo claro que percebo, aliás assim sem ver “digo-le” já que deve ser do sensor!

Amigo: O sensor.. E quanto é que me vai custar o arranjo do sensor?

Bob dos Esquentadores: Eu "faço-le" aqui um jeitinho, e fica tudo p'los 70€, mais IVA se quiser factura.


Amigo: Não acha isso um bocado caro?


Bob dos esquentadores: Isso depende se você quer continuar a tomar banho com água fria, ou não.

Caramba, o meu avô é que tinha razão. Devia ter aprendido um ofício. Just in case..

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

As relações e os recibos verdes


Aí estão os recibos verdes electrónicos. A partir de agora a DGCI comunica com os contribuintes por via electrónica, abandonando o velhinho livro de recibos verdes em papel.

Por acaso o livro de recibos verdes sempre foi coisa que a mim me causou particular estranheza. Em primeiro lugar porque não é verde, o que por si só constitui um dos maiores paradoxos da história fiscal do nosso país. Depois vem sem aquela folhinha que divide os copiativos, e que dá um jeito tremendo quando queremos passar um recibo, e não 3 ou 4 duma só vez.

Em boa verdade já nada disto me faz confusão, mas a decisão da DGCI trouxe-me uma nova perspectiva do livrinho de recibos com o qual tenho convivido nos últimos anos.

Actualmente em Portugal dois em cada três casamentos terminam em divórcio, e desses dois há um casalinho que não chega sequer a descongelar o bolo de noiva no final do 1º ano. Pessoalmente acho a ideia um completo nojo, já para não falar nos problemas de partilhas que esta questão levanta. Como é que um casal divide 2 kgs de bolo de noiva congelado? Com uma motoserra? E será boa ideia introduzir uma motoserra entre um casal desavindo e prestes a separar-se? Pois, se calhar não é.

Para nós faz cada vez mais sentido o antes só que mal acompanhado, algo que entretanto evoluíu para um mais vale acompanhado quando me apetece do que completamente só. O que antes era uma ideia peregrina, transformou-se num conceito de vida que cativa cada vez mais mulheres com gato país fora.
Bom, excepto na beira interior onde este tipo de pensamento libertino ainda dá direito a apedrejamento na praça pública, mas adiante.

A verdade é que estamos cada vez mais sozinhos por opção, e acompanhados by request. Dividimos a cozinha, o sofá, o chão da sala, a cama, mas nunca o copo onde só fica uma escova de dentes, ou o roupeiro, estrategicamente atulhado de roupa e sem um único cabide disponível.
Vês? Não há espaço para ti na minha vida, mas podes vir cá abrir a porta do meu roupeiro de vez em quando.

E quanto mais abrimos a porta do mesmo roupeiro mais depressa nos apercebemos de que ali não há mesmo espaço para nós. Mas na maior parte das vezes reagimos a isso também com alívio, e não apenas com resignação ou tristeza. Não haver espaço para pendurar um pouco da nossa vida significa não ter de assumir compromissos, não ter de dizer não a tudo o resto, significa não correr riscos, não sair magoado e significa acima de tudo não ter de dizer novamente a palavra amo-te.

E neste aspecto vejo nos homens com cão uma ingenuidade romântica que não vejo na maior parte das mulheres com gato da geração Sex and the City.

Às Miranda Hobbes por muito que lhes faça falta amar de novo alguém, o receio de se exporem e sairem de novo magoadas simplesmente não compensa sair da zona de conforto, e por isso vão mantendo o closet bem arrumadinho e sem espaço algum para pendurar um único camiseiro que cheire a Tom Ford ou Jean Paul Gaultier.

Já os homens com cão raramente pensam um pouco mais à frente que a cabeceira da cama, e como tal avançam destemidos em direção ao alvo qual kamikaze a bordo dum zero japonês, a gritar banzai no meio duma chuva de tiros de artilharia.

Nós não pensamos que podemos vir a apaixonar-nos, como também não pensamos na possibilidade de não correr bem, e 2 ou 3 meses depois sermos confrontados com o sentimento de rejeição e com a solidão. Homem que é homem joga futebol de praia num campo minado no Afeganistão, como já apanhava banhos de sol debaixo duma chuva de setas no meio duma batalha medieval há 700 anos atrás. E sem protector solar.

Ou seja, somos estúpidos por natureza. Paradoxalmente é essa estupidez que nos dá a capacidade de sermos ingénuos e românticos, enquanto que as mulheres com gato munidas dum 6º sentido letal são incapazes de tamanha estupidez, e é por essa razão que a maior parte das Miranda Hobbes modernas mantém uma visão mais cínica dos relacionamentos, sem espaços por preencher no closet, e completamente concentradas nas suas carreiras, e nos filhos se os houver.

Perante o incerto o homem com cão avança com um desconcertante logo vemos, deixando o destino entregue à sorte a troco duma queca. Já as mulheres modernas pouco dadas ao esoterismo reconfortante dos Paulos Coelhos da vida, ao logo vemos respondem com um já vi. Como em já vi esse filme antes, e tu não fazes parte querido.

Claro que esta muralha intransponível é muitas vezes feita de fumo e desfaz-se com um simples sopro, no meio da solidão e do silêncio, por entre linhas escritas mil vezes de maneiras diferentes da Margarida Rebelo Pinto, entrecortadas por lágrimas e Ferreros Roché. Como a própria autora diz para quem vive a sonhar é mais fácil viver. E vai mais um chocolatinho.
Esse lado fragil não nos é permitido ver. Para nós o closet vai estar sempre cheio, e é por isso que ocasionalmente continuamos a espalhar a roupa pela casa, ao invés de tirarmos uma camisa clássica de algodão Ralph Lauren sem um único vinco, dum cabide que está do nosso lado do roupeiro.

Há 4 anos a recibos verdes na empresa onde trabalho muitas vezes pergunto-me o que mais preciso de fazer para entrar para os quadros. Depois pensando bem, porque razão a minha entidade patronal iria abdicar dum colaborador extremamente competente, absolutamente compenetrado, 100% disponível, profissional e acima de qualquer reparo? Por razão nenhuma. E é por isso que continuo a ser um colaborador a recibos verdes.

Com as mulheres com gato e os relacionamentos modernos passa-se mais ou menos a mesma coisa. Partilham o melhor nos melhores momentos, e esperam dos homens com cão o mesmo tratamento em troca. Disponibilidade total quando é exigido, competência e dedicação acima de qualquer reparo, sem complicações e sem correr riscos. Mas sobretudo sem direito a meter baixa quando as coisas não correm bem, e sem litígio legal quando há necessidade de quebrar o vínculo contratual.

No meu trabalho há um pequeno bengaleiro onde os efectivos penduram os casacos e as camisas clássicas de algodão, para terem sempre uma muda de roupa quando entram em directo no estúdio, ou em reportagem.

E ali como no closet não há espaço para mais ninguém.

sábado, 12 de junho de 2010

Livro de Reclamações


As prometidas novidades têm sido atrasadas pelo volume de trabalho quase desumano a que tenho estado sujeito nas últimas semanas, mas como não há fome que não dê em fartura apelo à compreensão de quem me lê para aguardar um pouco mais.. Tentarei compensar com motivação redobrada e temas ainda mais polémicos!


Até lá reclamem à vontade! rsrsrs :)