sábado, 22 de outubro de 2011

O Amor é Lixado com "F" grande

Joana, mulher resolvida, 36 anos, sozinha e disponível, procura homem simpático, solteiro e de mente aberta para relacionamento casual e sem compromissos.


Há relativamente pouco tempo encontrei este anúncio numa rede social, assim tal e qual, e confesso que a natureza descomplexada do mesmo chegou para despertar a minha atenção.

Motivado pela curiosidade e claramente surpreendido pela clareza de ideias desta mulher com gato, resolvi pesquisar um pouco mais embora mantendo algumas reservas, não fosse este um completo paradoxo na complexidade emocional do mundo feminino, do qual palavras como relacionamento casual e sem compromissos raramente fazem parte.



O anúncio pareceu-me bastante credível, tanto que vim depois a saber que esta mulher com gato é de Coimbra, tem dois filhos com idades diferentes abaixo dos 8 anos, e não podendo contar com a ajuda do pai para quase nada, desdobra-se em dezenas de tarefas diárias das 7.00h às 22h, entre preparar mochilas, lanches e roupa para as actividades, acordar, vestir e dar o pequeno-almoço aos meninos, que depois seguem de carro para a escola.

E tudo isto acontece antes das 8.30h, hora em que Joana se demite do papel de mãe para assumir funções executivas como responsável de marca duma empresa com múltiplas lojas abertas nos principais centros urbanos do país.

Até às 18.30h o dia está ocupado, e depois disso recomeça a correria. A rotina nem sempre é a mesma e de 2ª a 6ª divide-se entre body-combat no ginásio às 3ª’s e 5ª’s, e levar o filho mais velho ao futebol às 4ª’s e 6ª’s, antes de ir buscar o mais novo ao ATL ao final do dia, sempre com o Blackberry ao seu lado, que nunca desliga.


Depois vem o banho, os trabalhos de casa, e o jantar. À noite, depois da brincadeira, do Peso Pesado, e com os miúdos já na cama, é altura de rever relatórios diários e preparar a primeira reunião da manhã seguinte.


O pouco tempo que resta divide-o entre o alienado Dr. House e o sorumbático Horatio Caine, duas personagens que preenchem quase todas as medidas do ideal masculino de Joana, vá-se lá saber porquê. Um é anti-social e manco, o outro não tira os óculos escuros nem para tomar banho de manhã, e tem o hábito irritante de olhar para o lado antes de terminar uma frase.



Confirmam-se as minhas suspeitas. No que diz respeito aos homens, as mulheres são de tal forma labirínticas que nem um rato de laboratório consegue encontrar a saída. É a total ausência de critério.

Talvez por isso, e por saber que dificilmente vai encontrar um médico manco com a pinta do House, ou um investigador criminal com o misticismo do bom Horácio, Joana optou por simplificar as coisas, aderindo à nouvelle vague do relacionamento interpessoal: o easy dating.



Na Inglaterra chama-se sex-on-demand e está a provocar uma autêntica revolução sexual. Longe vão os tempos em que Margaret Thatcher comandava o reino unido com punhos de ferro, e com um ar ainda mais austero que o memorandum da troika para a Grécia.

Os tempos são outros, e ao contrário de Thatcher que aos 86 anos ainda deve estar para saber o que é um bom orgasmo, na Inglaterra a inversão do papel dominante está a acontecer à conta de … sexo. Muito sexo para ser mais exacto.

E tudo acontece nas redes sociais, onde à distância dum click as mulheres com gato inglesas conseguem aceder aos mais variados menus de degustação sexual, escolhendo entre dezenas de candidatos aquele que melhor parece ser capaz de saciar o apetite, em função da hora do dia, disponibilidade, robustez física versus rendimento per capita, etc.. E quanto maior for a robustez da capita melhor.

Assim em vez da tradicional pausa para o chá das cinco com biscoitos de manteiga, as britânicas deliciam-se agora com algo que pode ser tão ou mais relaxante e retemperador que o chá: um fantástico orgasmo. Um ou vários dependendo do biscoito que acompanha o “chá” neste caso.



E nada disto envolve prendinhas. É tudo feito de comum acordo seguindo uma lógica tu tens algo que eu quero, e eu tenho algo que te faz falta.

Nós por cá ainda não estamos propriamente à vontade com este tipo de vida libertina. Reflexos duma sociedade conservadora que na altura do Salazarismo ia à missa aos Domingos de manhã com a mesma candura imaculada com que frequentava os bordéis legalizados aos Sábados à noite. Vivíamos bem com Deus e com o diabo. Eramos uma aldeia de roupa branca, e como longe dos olhos o coração não sente, casava-mos para a vida toda com a bênção de Salazar e da igreja.

Este é um estigma que ainda nos persegue. Hoje já não há Salazar mas continuamos a brincar às escondidas com a moralidade.



Os ingleses – ou as inglesas melhor dizendo -, encontraram no sex-on-demand uma forma simples de resolver o problema. Se lhes apetece a meio da manhã basta clicar e pedir para comer a meio da tarde. Sem constrangimentos, cafezinhos ou sms’s no dia seguinte. No fundo é como o anúncio dos Ferrero Rocher:

Madame: Ambrósio, apetece-me algo…


Ambrósio: Sim senhora. Tomei a liberdade de tirar a roupa senhora.


Madame: Ohh! Bravo Ambrósio!



E pronto, a madame lá comia o Ambrósio com a mesma facilidade com que se come uma caixinha de Ferreros Rocher.



Isto por cá não é assim tão simples. Na generalidade as mulheres com gato portuguesas são muito parecidas com a madame do anúncio dos Ferreros. Apetece-lhes algo. Mas por muita vontade que tenham de comer o Ambrósio logo na primeira voltinha de limousine, isso raramente acontece porque ia parecer mal. E porque ia parecer mal muitas vezes não falamos de tudo com a pessoa que divide a nossa cama. Afinal o que ele iria pensar de mim.



Por muito caricato que possa parecer este pudor patológico não é um exclusivo das mulheres com gato em Portugal.



Um grande amigo meu acredita piamente que mulher para casar com ele não pode fazer ou gostar sequer de sexo oral. De sexo anal então nem se fala. Diz ele que se ela gostar é porque já fez com outros, e sabe-se lá por onde andou com a boca.



Este é o mesmo amigo que queria porque queria namorar com uma miúda virgem, seguindo a mesma lógica do sabe-se lá por onde andou com a coisa.



Quando finalmente encontrou uma não demorou nem 1 mês para começarem os desabafos e os queixumes. Afinal aquilo não tinha piada nenhuma porque ela não sabia o que fazer, não tinha iniciativa, e era tudo devagar e devagarinho com muito amor e carinho. No fundo era como a comida biológica, em teoria uma óptima ideia, na prática uma grande merd#.



Ou seja faltava-lhe aquela putice que qualquer homem aprecia numa mulher mais experiente. Dito de outra forma, para quê comer um bife de soja que não sabe a nada quando nos podemos lambuzar com uns deliciosos secretos de porco preto? É por aí.



Este meu amigo é um paradoxo e talvez um mau exemplo, mas é ainda assim um exemplo deste Portugal pequenino.



Na Inglaterra os anúncios pessoais em redes sociais de cariz não profissional vieram em certa medida resolver este problema. Elas têm o que querem, quando querem e como querem, enquanto que eles… Bom, eles estão basicamente a borrifar-se para o resto porque um gajo é um gajo e há sempre espaço para uma refeição grátis. Aqui, na Inglaterra ou no Suriname.



Além do mais ninguém no seu perfeito juízo vai apaixonar-se por uma fulana que publica algo do género:



procuro machos activos que me queiram comer como uma cachorrinha.


Assina: kadelinha_komilona.



Não quero com isto dizer que um gajo não goste de encontrar na sua gaja um pouco de kadelinha_komilona aqui e ali, e quem disser o contrário ou está a mentir com todos os dentes, ou então é gay.


O que acontece muitas vezes é que não falamos disto, nem elas falam connosco. Pelo pudor patológico que nos atormenta tudo o que foge à dita normalidade, ou simplesmente por receio de estragar algo que demorou tanto tempo a construir.



E até se percebe porquê. Que se chegue à frente o primeiro gajo que estando genuinamente interessado numa mulher com gato, não pense duas vezes quando à pergunta qual é o teu maior fetiche? seja surpreendido pela resposta: ser comida por dois gajos. E já agora que se chegue à frente a mulher que nas mesmas condições tenha a coragem de responder com honestidade.


Paradoxalmente a maior parte dos casais queixa-se da rotina quando questionados sobre o porquê da separação.

Mariana: Oh Bernardooo…


Bernardo: Diga querida..


Mariana: Oh querido já estamos juntos há tantos anos... Sabe o que me apetecia assim para quebrar a rotina?


Bernardo: Diga querida…


Mariana: Oh.. Você se calhar não vai gostar Bernardo…


Bernardo: Oh querida diga lá..


Mariana: Oh Bernardo, gostava que você me chamasse nomes feios quando ‘tá comigo, ‘tá a ver?


Bernardo: Nomes feios? Mas que nomes feios querida?


Mariana: Ai oh Bernardo,chame-me aquele nome que começa com “p”..


Bernardo: Com “p”? Você quer que lhe chame pindérica?


Mariana: Ai c’horror! Oh Bernardo é aquele nome que começa com “pu” e acaba em “ta”, ‘tá a ver?! Você também não percebe nada, que maçada!


Joana, mulher resolvida, 36 anos, sozinha e disponível, procura homem simpático, solteiro e de mente aberta para relacionamento casual e sem compromissos.

E porquê? Porque o amor às vezes é mesmo uma f###.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Mais Vale Sobrar do que Faltar





Fui há dias surpreendido por uma notícia curiosa divulgada pelo Correio da Manhã, mais virado para este tipo de fait-divers.


Um estudo tornado público por um grupo de urologistas da Coreia do Sul veio revelar que pode existir uma relação directa entre a mão direita, e o tamanho do pénis.


(…)


Vá, façamos uma pausa para que os leitores do Homem com Cão possam olhar de soslaio para a sua mão direita. Já está?


Primeiro que tudo debrucemo-nos sobre os prós e os contras deste estudo ter sido levado a cabo na Coreia do Sul.


Sendo uma das economias mais fortes do mundo, e um dos países mais avançados tecnologicamente, qualquer estudo anunciado na República da Coreia tem forçosamente de ser levado a sério. Porém, é sabido que os asiáticos são em média o povo com os pénis mais pequenos do mundo, e meus amigos contra factos não há argumentos. E o facto é que os sul-coreanos nesta matéria não têm mesmo muitos argumentos.


Mas gabo-lhes o afoito. Apresentar um estudo deste género na Coreia do Sul é hoje em dia quase o mesmo que o governo da Grécia fazer uma dissertação sobre o endividamento público. Duvido que exista uma grande base científica, mas pelo menos são originais.


Talvez porque têm espelhos em casa, e porque acharam que não valia a pena entrevistar muita gente, os urologistas sul-coreanos analisaram apenas 144 homens com mais de 20 anos, para chegarem à conclusão de que a mão direita é de facto reveladora do tamanho do instrumento.

De acordo com Tae Beom Kim, coordenador da investigação, a testosterona pré-natal exerce a mesma influência sobre a formação dos dedos e do pénis. Assim, quanto menor for a diferença entre o dedo anelar e o dedo indicador da mão direita, maior é o pénis.


(...)


Nova pausa porque neste momento os homens com cão estão de certeza a olhar para a mão direita. Outra vez. Não vale a pena puxar pelos dedos porque isso já não cresce mais, ok?


De facto de todas as variáveis analisadas só o tamanho dos dedos estava relacionado com o tamanho do pénis, e Beom Kim acredita que futuramente é para o indicador e anelar direito que as mulheres com gato terão de olhar quando quiserem antecipar o que lhes poderá reservar o destino.


Cabe a cada mulher com gato pronunciar-se sobre esta matéria. Há quem prefira não correr riscos, mas por outro lado haverá igualmente quem não dispense o friozinho na barriga do efeito Kinder Surpresa na altura de puxar pelos shorts. É um brinquedo, é uma surpresa e até pode ser de chocolate. Depende do sabor do preservativo.


É mais ou menos o mesmo que escolher independentes para os ministérios e secretarias de estado. Nunca se sabe muito bem o que vai sair dali, e neste aspecto Pedro Passos Coelho andou a distribuir ovos Kinder como um autêntico coelho da páscoa fora de época. Tal como Jorge Jesus que depois de ter levado dois aviões de jogadores para o estágio do Benfica na Suíça, deve andar com aquele friozinho na barriga sem saber se dali vai sair algum que se aproveite, ou não.


Para as mulheres com gato que não andam a prestar atenção ao tamanho dos dedos, é exactamente o mesmo friozinho na barriga que sentem segundos antes de puxarem os shorts rumo ao desconhecido. Não sabem se dali vai sair algo que se aproveite ou não, e clubismos à parte há sempre quem invoque o nome do treinador do Benfica nestas situações. Para o bem ou para o mal.

Há no entanto excepções. Por exemplo, na vizinha Coreia do Norte as mulheres com gato não chamam de certeza por Jesus, primeiro porque não sabem quem é o treinador do Benfica, depois porque Jesus não é o nome do filho de Kim IL Sung, o eterno presidente e Deus lá do sítio.

Mas também não devem chamar por ninguém porque como não há liberdade de imprensa e a internet é controlada pelo Estado, as norte-coreanas vivem felizes e contentes com os 9,66 centímetros correspondentes ao tamanho médio dum pénis erecto naquela zona do globo.

E como não há pacotes turísticos em conta para Pyongyang, é pouco provável que um pénis erecto naquela zona do globo seja de outro tipo qualquer que não dum norte-coreano.

Imagine-se a revolução cultural que não seria se um congolês tivesse uma erecção na Coreia do Norte. Os 17,93 correspondentes ao tamanho médio dum qualquer nativo do Congo, iam parecer um míssil balístico quando comparados com os 9,66 que as norte-coreanas foram ensinadas a ver como uma dádiva suprema do presidente eterno Kim IL Sung.

Provavelmente os quase 18 centímetros dariam para entreter duas ou três norte-coreanas durante algumas horas, antes delas perceberem que afinal há vida para lá da Coreia, mas os líderes militares estão atentos a este perigo e ao primeiro avistar dum congolês certamente iriam disparar a matar, para logo a seguir declararem guerra à República Democrática do Congo. Só por causa das coisas.

Nós por cá também somos muito preocupados com o tamanho das coisas. O tamanho da casa, o tamanho do carro, o tamanho do telemóvel, mas especialmente o tamanho do coiso.

E graças ao estudo desenvolvido pelos especialistas da Coreia do Sul temos agora esta ferramenta ao nosso dispor. Não precisamos mais de lançar um olhinho para o coiso do gajo que está ao nosso lado no chuveiro do ginásio, por exemplo.

Isto parece ridículo (e é mesmo), mas acontece muito frequentemente, e é popularmente conhecido entre os sexólogos como o síndrome do balneário, uma competição narcisista entre homens que definem a sua masculinidade em função do tamanho dos pénis.

É por estas e por outras que nunca tomo banho em balneários, além do mais não quero envergonhar ninguém que levanta 5 vezes o meu peso na prensa vertical.

Para nós, homens com cão, esta é uma preocupação antiga, e apesar de todas as mulheres dizerem que o tamanho não importa, eu ficava lixado se me perguntassem se tenho família na Coreia. E qual é o homem que não gostaria de ouvir Oh meu Deus! Tu nasceste no Congo?!

Em valores médios não estamos assim tão longe como os 5.410 kms que distam Lisboa de Kinschasa. De acordo com um estudo publicado em 2007 pelo sexólogo Nuno Monteiro Pereira, o tamanho duma erecção dum genuíno português representa qualquer coisa como 15,82cms. É um tamanho muito respeitável, e só a título de curiosidade é bem mais que os espanhóis (13,85), muito mais que os tipos da Moodys (12,90), e ligeiramente acima dos brasileiros (15,70).

Admito que para as mulheres com gato o tamanho do pénis possa parecer uma discussão narcísica, empolada pela indústria pornográfica que nas últimas décadas ajudou a mitificar falos do tamanho dos enchidos do Fundão, quando podia mostrar mulheres a deliciarem-se com orgasmos múltiplos enquanto brincam com um normalíssimo pénis de 16cms, não congolês portanto.

Teria sido bem mais saudável e instrutivo. Mas a verdade é que se um casal português subscrever o canal Venus para apimentar a sua vida sexual, o mais certo é a mulher com gato ter a mesma reacção que uma norte-coreana teria se descobrisse que há vida para lá dos 9,66.

E lá vinha o nome do treinador do Benfica à baila novamente.

Um gajo está ali com a sua gaja a ver um filmezinho, e passados 2 ou 3 minutos ouve um ai Jesus, e começa logo a sentir-se como se fosse o único gajo do prédio que não nasceu em Kinschasa.

E é nestas alturas que nós, homens com cão, costumamos ser reconfortados com a ideia do deixa lá querido, é pequenino mas é trabalhador.

Meus amigos, desenganem-se. O que elas não dizem a seguir mas pensam é: olha é pena é fazer greve tantas vezes.

A ideia de que o pequenino e trabalhador é suficiente para satisfazer o imaginário erótico duma mulher, é tão falsa quanto ouvir falar o Sócrates há uns meses atrás sobre a saúde financeira do nosso país, também ele pequenino e trabalhador. Meses depois disso aí está a ajuda externa porque o país pequenino e trabalhador simplesmente não deu conta do serviço.

E qual é o homem com cão que quer ajuda externa quando toca ao seu coiso?

A verdade é que para as mulheres com gato o tamanho importa mesmo, e não é só o comprimento, é sobretudo o volume que ocupa também. Qualquer erecção abaixo dos 13 ou 14 centímetros e já começa a ser preciso muita originalidade e muito amor para fazer com que a coisa e o coiso funcionem.

Afinal o estudo dos especialistas sul-coreanos não é assim tão descabido quanto isso, e quando ouvirem qualquer coisa do género “Ohh! Tens umas mãos tão lindaaas! Posso ver melhor?” preparem-se porque estão prestes a espreitar para dentro das vossas calças.


E como dizia a minha avó: mais vale sobrar do que faltar.

sábado, 25 de junho de 2011

Soluções de Água Quente

O meu avô sempre me disse, tu devias aprender era um ofício em vez de ires para doutor. A recomendação foi de tal forma persistente durante o meu período académico, que não foi difícil chegar a um ponto em que eu já conseguia antecipar o momento em que lá íamos de novo falar dos ofícios, porque na ideia dele trabalho nunca vai faltar a electricistas, canalizadores ou até mesmo àqueles fulanos que arranjam os estores.

E pese embora o meu avô nunca tenha sequer hesitado financiar os meus estudos, a verdade é que uns anos largos depois da sua morte, apareceu no meu caminho o tal mestre dos ofícios que ele tanto apregoava, a propósito dum esquentador que durante meses a fio insistiu em apagar-se a meio do banho.

Nesta altura do ano (n.d.r. verão) o transtorno nem seria assim tão grande, mas na força do inverno às 7h da manhã, ir da banheira até à cozinha com espuma nos olhos e com 7 graus positivos, para depois ficar ali uns 10 minutos a gelar e a pedir liga, vá lá ligaaaa como se o esquentador tivesse vontade própria… Bem, é coisa para deixar um tipo a pensar seriamente na vida.

Raios partam, deve ter enviado este fulano só para me atormentar a cabeça! Falo claro está do senhor dos esquentadores. E não sabendo ao certo como catalogar a profissão do senhor dos esquentadores, vamos chamá-lo de Bob dos Esquentadores.

O Bob dos Esquentadores era um fulano de boa estatura, anafado, pessoa de muito alimento, dos que não dispensam o bom do bitoque na hora do almoço regado com um belo jarro de vinho tinto. De bigode farto, barriga proeminente a pender sobre o cinto das calças, e com aquele ar manhoso de quem está a tentar fazer passar-se por uma pessoa séria.

Como qualquer Bob que se preze, este também trazia um colete cheio de pequenas ferramentas, uma caixa com ferramentas ainda maiores, e um aprendiz de feiticeiro que, estou certo, não hesitaria em atirar-se pela janela do 2º andar ao simples estalar de dedos do mestre guru dos esquentadores.

E nem foi preciso esperar muito para que as palavras do meu falecido avô começassem a ecoar de novo na minha cabeça, como uma assombração:

Bob dos esquentadores: Uiiii… Tem este modelo?

Aprendiz: Uiiii…

Eu: Ui? O que quer dizer com ui?

Bob dos esquentadores: Oh chefe é que estes modelos costumam dar uns problemazitos..

Aprendiz: Pois costumam!

Eu: Humm.. Uns poblemazitos? Que tipo de problemazitos?

Bob dos Esquentadores: Já “le” digo, deixe-me só tirar aqui a tampinha…

(pausa)

Bob dos Esquentadores: Ehpa oh chefe, isto não está com muito bom aspecto. ‘Tá a ver o que eu “le” disse? Tsss…

Aprendiz: Tsss..

Eu: Não está? Então? – respondi, um pouco a medo.

Bob dos Esquentadores: Só assim sem ver o resto “digo-le” já que deve ter o sensor avariado chefe
– retorquiu de olhos arregalados por cima do bigode oleoso, enquanto acenava com a chave de fendas ajeitando as calças que mais pareciam um dique prestes a ceder ao peso da barriga.

Eu: O sensor.. – ou seja, em bom português começava a tornar-se evidente que ia deixar ali o cu e as calças.

Em menos de 5 minutos um parafuso e duas pilhas depois, veio o diagnóstico:

Bob dos Esquentadores: Chefe, é o sensor. Isto anda na ordem dos 60€, mais as duas pilhas. Quer que eu “las” meta e arranje o esquentadorzinho?

Eu: Pronto, arranje lá o esquentadorzinho.. – um tipo vai dizer o quê?

Bob dos Esquentadores: Então olhe eu “faço-le” isto tudo … deixe cá ver … e vão 3… mais 15… Eu “dou-le” aqui um jeitinho e fica tudo p’los 70€. Se quiser factura é mais IVA.

Toma lá fresquinho. 70€ com jeitinho, sem papéis e em menos de 5 minutos, para mudar duas pilhas – que eu paguei – e desapertar um parafuso. Proporcionalmente nem o Ronaldo deve ganhar tanto em menos de 5 minutos. E quem é que ficou a rir com tudo isto? Fácil. O Bob dos Esquentadores, o aprendiz, e claro o meu avô.

Depois de pagar, e já com o Bob dos esquentadores a caminho do merecido bitoque – aproximava-se a hora do almoço -, questionei-o se teria sido um valor justo a pagar para colocar duas pilhas, e afinar um sensor. A resposta deixou-me incapaz de contra-argumentar:

Depende se quer ou não continuar a tomar banho com água fria.

Talvez percebendo que estava resignado mas não convencido, o fulano ainda fez uma pausa e acrescentou:

Oh chefe, as pilhas até você podia mudar e eu só “le” cobrei o valor de custo, e a deslocação. Afinar o sensor é que não é p’ra todos, ‘tá a perceber?

Perfeitamente. O valor das coisas tem sempre de ser colocado em perspectiva. Por exemplo, só quem já por muitas vezes se sentiu como uma ervilha pré-congelada às 7h da manhã em pleno inverno, é que pode verdadeiramente valorizar a falta que faz ter um bom esquentador em casa, ou pelo menos um que funcione.

Da mesma forma só quem já experimentou aquele clik instantâneo entre duas pessoas sabe verdadeiramente como é o calor dum beijo, que poucos segundos depois faz-nos sentir a ferver por dentro e por fora, envolvendo-nos de forma viciante como a água quente quando percorre o nosso corpo.

No fundo, as relações entre homens com cão e mulheres com gato são assim, como os esquentadores inteligentes: quando funcionam a chama é instantânea. Como disse o poeta, é fogo que arde sem se ver. Duvido no entanto que ele estivesse apensar em esquentadores quando escreveu isto.

Quando não funcionam, na melhor das hipóteses sobra-nos os duches com água tépida que nunca serão suficientes para fazer esquecer que temos de fechar a torneira.

O único senão é que nas relações, ao contrário dos esquentadores, não há quem por nós consiga fazer seja o que for, quando o sensor simplesmente não funciona. E que jeito que dava ter um Bob dos esquentadores à distância dum telefonema.

Bob dos Esquentadores: Or’então diga lá o que se passa amigo!

Amigo: Não sei explicar, acho que não há clik.. Não há chama, percebe?

Bob dos Esquentadores: Ohhh amigo claro que percebo, aliás assim sem ver “digo-le” já que deve ser do sensor!

Amigo: O sensor.. E quanto é que me vai custar o arranjo do sensor?

Bob dos Esquentadores: Eu "faço-le" aqui um jeitinho, e fica tudo p'los 70€, mais IVA se quiser factura.


Amigo: Não acha isso um bocado caro?


Bob dos esquentadores: Isso depende se você quer continuar a tomar banho com água fria, ou não.

Caramba, o meu avô é que tinha razão. Devia ter aprendido um ofício. Just in case..