Em 2006 por exemplo celebraram-se 47.857 casamentos católicos e civis, contra apenas 46.329 em 2007, ou seja, menos 1528 casamentos. E este valor continuou a diminuir ao mesmo ritmo em 2008 com pouco mais de 44.800 ofícios nas conservatórias do registo civil em Portugal.
A primeira conclusão a retirar desta leitura é que contrariamente às expectativas europeias, somos um país cada vez com mais bom senso, mas não só. Somos também um país de pessoas cada vez menos interessadas em dividir o nosso roupeiro com quem quer que seja, e se dúvidas houvessem basta olhar para a taxa de divórcios: números redondos, 50 a cada 100 casamentos.
Uma segunda leitura permite-nos uma análise ainda mais pertinente. Não só queremos cada vez menos dividir o nosso roupeiro com outra pessoa, como metade dos que pensam ahh e tal não deve ser assim tão mau, afinal descobrem que sim, afinal é assim tão mau!
Mas à luz das estatísticas do INE há ainda uma outra leitura possível, essa sim realmente assustadora, senão vejamos: números redondos, das 90.000 pessoas que todos os anos prometem amar-se para todo o sempre, cerca de 45.000 começam à procura de outra pessoa para amar para todo o sempre ao final de 12 meses. É um todo o sempre assim a atirar para o curtinhooo..
É por isto que eu sou a favor do casamento entre pessoas estranhas.
Admito que a ideia pode parecer no mínimo absurda, para não dizer estúpida mesmo, mas só num primeiro momento.
Eu ainda sou do tempo do Impulse e do anúncio do desconhecido que oferecia flores. Isso já lá vai. Como as coisas estão hoje em dia se um desconhecido lhe oferecer flores provavelmente é um qué-frô a tentar fazer negócio. Mas se um desconhecido lhe pedir em casamento, isso não só é Impulse, como é também muito inteligente.
Em primeiro lugar nenhum dos dois conhece o respectivo cônjugue, é portanto garantia de que o estado de graça vai permanecer intacto durante largos meses. Ou seja, quando começar a descobrir aquelas pequenas coisas que a irritam de morte, provavelmente já passou a barreira psicológica do primeiro ano, o mais difícil para a maior parte dos casais. E quem aguenta 1 ano se calhar aguenta 10 ou 20!
A ideia que as actuais estatísticas sugerem é que o casamento é uma espécie de fuga para a frente. Um desfecho lógico mas não apaixonado.
Reparem neste testemunho que só por acaso não saiu na revista Happy de Agosto:
Daniela e Francisco. 8 anos de namoro e acomodados à segurança duma relação que não teve um motivo forte para terminar. Pressionados pela família resolvem dar um passo em frente. O passo lógico. Afinal começa a ficar tarde para pensar em filhos. Porque não?
Certamente nem todos os divórcios apresentam esta patologia, mas para muitos este será o quadro clínico de diagnóstico mais frequente. Muitos casais não encontram motivos fortes para terminarem, mas se calhar também não têm um motivo forte para continuarem. Continuam porque é o que eles e os outros esperam de si próprios.
Ora, o casamento entre estranhos é por si só uma completa aventura. Aqui não existe nenhum passo lógico porque a ideia é absurda, nem existem pressões por parte da família porque verdade seja dita ninguém estava à espera!
Depois há sempre o lado fetichista de ter sexo com um estranho, que afinal é o seu marido! Estão garantidas noites e noites de descoberta e mistério, ao invés do habitual e rotineiro sexo já com 8 anos de idade, aquele que dura quase sempre o mesmo tempo, que se faz quase sempre na mesma posição, e que termina quase sempre com o mesmo sono profundo sem direito a 2ª volta.
O casamento entre pessoas estranhas apresenta ainda outra vantagem que não deve ser subestimada. Não sabendo coisa alguma dos respectivos cônjugues, nem tão pouco quem eles são até à cerimónia propriamente dita, evita-se o contra-poder habitualmente instalado na pessoa das nossas sogras.
Mãe: Tu é que sabes filha, mas cá para mim ficavas muito melhor com o filho do Sr. Bento, lá da Mercearia.
Filha: ... Mãe eu amo o Ricardo.
Mãe: Oh filha mas ficavas tão bem com ele! É um rapaz com juizo. Está a terminar o curso e diz que está muito bem na vida.
Filha: ... Já falamos sobre isso mãe.
Mãe: Tem lá algum jeito agora ires casar com um músico, onde é que já se viu?! E que vida é que ele te vai dar querida?
Na sociedade actual em que vivemos informação é poder, e a falta dela neste caso concreto só traz vantagens. A todas as sogras devia ser interdito o acesso a informações como o grau de ensino dos futuros genros, as qualificações profissionais, se têm ou não emprego, quanto ganham, se têm ou não carro, etc, etc.
A verdade é para ser dita doa a quem doer. As sogras nunca olham para os futuros genros com o coração, mas sim com a cabeça. Ao contrário das filhas que estão apaixonadas, as sogras analisam tudo com um pensamento crítico particularmente acutilante. Posso estar enganado mas está para nascer a sogra que entre um futuro médico cirurgião e um aspirante a músico escolha o aspirante a Bono para a sua filha.
A ideia dum casamento entre estranhos pode continuar a parecer absurda, mas olhando para as estatísticas do INE não existe um único argumento que contrarie de forma assertiva a validade desta opção.
Por muito disparatada que a ideia possa parecer, a verdade é que já houve quem se lembrasse disto antes, mais precisamente a 24 de Setembro de 1997 quando foi para o ar o 1º episódio da série televisiva Darma & Greg.
Na série da ABC Jenna Elfman e Thomas Gibson interpretam Dharma e Greg, dois absolutos estranhos que conhecem-se e casam-se no primeiro encontro, apesar de serem o completo oposto um do outro. Uma ideia absurda que ao longo dos 115 episódios rendeu um Globo de Ouro, 6 Emmys, e 20 milhões de espectadores/ano nas primeiras 3 épocas.
Dharma & Greg estiveram juntos durante 5 anos, 4 anos mais que metade dos casamentos que se realizam em Portugal.
É verdade que se trata de ficção, mas quantas vezes a realidade imita a ficção, e com resultados supreendentes?
Da próxima vez que um estranho lhe oferecer flores, isso não é Impulse, é quase de certeza um pedido de casamento!
A ideia pode continuar a parecer absurda, mas diga lá que não ficou com vontade de dar um pulinho até à FNAC mais próxima para espreitar os preços do pack da 1ª temporada de Dharma&Greg?









