sábado, 22 de outubro de 2011

O Amor é Lixado com "F" grande

Joana, mulher resolvida, 36 anos, sozinha e disponível, procura homem simpático, solteiro e de mente aberta para relacionamento casual e sem compromissos.


Há relativamente pouco tempo encontrei este anúncio numa rede social, assim tal e qual, e confesso que a natureza descomplexada do mesmo chegou para despertar a minha atenção.

Motivado pela curiosidade e claramente surpreendido pela clareza de ideias desta mulher com gato, resolvi pesquisar um pouco mais embora mantendo algumas reservas, não fosse este um completo paradoxo na complexidade emocional do mundo feminino, do qual palavras como relacionamento casual e sem compromissos raramente fazem parte.



O anúncio pareceu-me bastante credível, tanto que vim depois a saber que esta mulher com gato é de Coimbra, tem dois filhos com idades diferentes abaixo dos 8 anos, e não podendo contar com a ajuda do pai para quase nada, desdobra-se em dezenas de tarefas diárias das 7.00h às 22h, entre preparar mochilas, lanches e roupa para as actividades, acordar, vestir e dar o pequeno-almoço aos meninos, que depois seguem de carro para a escola.

E tudo isto acontece antes das 8.30h, hora em que Joana se demite do papel de mãe para assumir funções executivas como responsável de marca duma empresa com múltiplas lojas abertas nos principais centros urbanos do país.

Até às 18.30h o dia está ocupado, e depois disso recomeça a correria. A rotina nem sempre é a mesma e de 2ª a 6ª divide-se entre body-combat no ginásio às 3ª’s e 5ª’s, e levar o filho mais velho ao futebol às 4ª’s e 6ª’s, antes de ir buscar o mais novo ao ATL ao final do dia, sempre com o Blackberry ao seu lado, que nunca desliga.


Depois vem o banho, os trabalhos de casa, e o jantar. À noite, depois da brincadeira, do Peso Pesado, e com os miúdos já na cama, é altura de rever relatórios diários e preparar a primeira reunião da manhã seguinte.


O pouco tempo que resta divide-o entre o alienado Dr. House e o sorumbático Horatio Caine, duas personagens que preenchem quase todas as medidas do ideal masculino de Joana, vá-se lá saber porquê. Um é anti-social e manco, o outro não tira os óculos escuros nem para tomar banho de manhã, e tem o hábito irritante de olhar para o lado antes de terminar uma frase.



Confirmam-se as minhas suspeitas. No que diz respeito aos homens, as mulheres são de tal forma labirínticas que nem um rato de laboratório consegue encontrar a saída. É a total ausência de critério.

Talvez por isso, e por saber que dificilmente vai encontrar um médico manco com a pinta do House, ou um investigador criminal com o misticismo do bom Horácio, Joana optou por simplificar as coisas, aderindo à nouvelle vague do relacionamento interpessoal: o easy dating.



Na Inglaterra chama-se sex-on-demand e está a provocar uma autêntica revolução sexual. Longe vão os tempos em que Margaret Thatcher comandava o reino unido com punhos de ferro, e com um ar ainda mais austero que o memorandum da troika para a Grécia.

Os tempos são outros, e ao contrário de Thatcher que aos 86 anos ainda deve estar para saber o que é um bom orgasmo, na Inglaterra a inversão do papel dominante está a acontecer à conta de … sexo. Muito sexo para ser mais exacto.

E tudo acontece nas redes sociais, onde à distância dum click as mulheres com gato inglesas conseguem aceder aos mais variados menus de degustação sexual, escolhendo entre dezenas de candidatos aquele que melhor parece ser capaz de saciar o apetite, em função da hora do dia, disponibilidade, robustez física versus rendimento per capita, etc.. E quanto maior for a robustez da capita melhor.

Assim em vez da tradicional pausa para o chá das cinco com biscoitos de manteiga, as britânicas deliciam-se agora com algo que pode ser tão ou mais relaxante e retemperador que o chá: um fantástico orgasmo. Um ou vários dependendo do biscoito que acompanha o “chá” neste caso.



E nada disto envolve prendinhas. É tudo feito de comum acordo seguindo uma lógica tu tens algo que eu quero, e eu tenho algo que te faz falta.

Nós por cá ainda não estamos propriamente à vontade com este tipo de vida libertina. Reflexos duma sociedade conservadora que na altura do Salazarismo ia à missa aos Domingos de manhã com a mesma candura imaculada com que frequentava os bordéis legalizados aos Sábados à noite. Vivíamos bem com Deus e com o diabo. Eramos uma aldeia de roupa branca, e como longe dos olhos o coração não sente, casava-mos para a vida toda com a bênção de Salazar e da igreja.

Este é um estigma que ainda nos persegue. Hoje já não há Salazar mas continuamos a brincar às escondidas com a moralidade.



Os ingleses – ou as inglesas melhor dizendo -, encontraram no sex-on-demand uma forma simples de resolver o problema. Se lhes apetece a meio da manhã basta clicar e pedir para comer a meio da tarde. Sem constrangimentos, cafezinhos ou sms’s no dia seguinte. No fundo é como o anúncio dos Ferrero Rocher:

Madame: Ambrósio, apetece-me algo…


Ambrósio: Sim senhora. Tomei a liberdade de tirar a roupa senhora.


Madame: Ohh! Bravo Ambrósio!



E pronto, a madame lá comia o Ambrósio com a mesma facilidade com que se come uma caixinha de Ferreros Rocher.



Isto por cá não é assim tão simples. Na generalidade as mulheres com gato portuguesas são muito parecidas com a madame do anúncio dos Ferreros. Apetece-lhes algo. Mas por muita vontade que tenham de comer o Ambrósio logo na primeira voltinha de limousine, isso raramente acontece porque ia parecer mal. E porque ia parecer mal muitas vezes não falamos de tudo com a pessoa que divide a nossa cama. Afinal o que ele iria pensar de mim.



Por muito caricato que possa parecer este pudor patológico não é um exclusivo das mulheres com gato em Portugal.



Um grande amigo meu acredita piamente que mulher para casar com ele não pode fazer ou gostar sequer de sexo oral. De sexo anal então nem se fala. Diz ele que se ela gostar é porque já fez com outros, e sabe-se lá por onde andou com a boca.



Este é o mesmo amigo que queria porque queria namorar com uma miúda virgem, seguindo a mesma lógica do sabe-se lá por onde andou com a coisa.



Quando finalmente encontrou uma não demorou nem 1 mês para começarem os desabafos e os queixumes. Afinal aquilo não tinha piada nenhuma porque ela não sabia o que fazer, não tinha iniciativa, e era tudo devagar e devagarinho com muito amor e carinho. No fundo era como a comida biológica, em teoria uma óptima ideia, na prática uma grande merd#.



Ou seja faltava-lhe aquela putice que qualquer homem aprecia numa mulher mais experiente. Dito de outra forma, para quê comer um bife de soja que não sabe a nada quando nos podemos lambuzar com uns deliciosos secretos de porco preto? É por aí.



Este meu amigo é um paradoxo e talvez um mau exemplo, mas é ainda assim um exemplo deste Portugal pequenino.



Na Inglaterra os anúncios pessoais em redes sociais de cariz não profissional vieram em certa medida resolver este problema. Elas têm o que querem, quando querem e como querem, enquanto que eles… Bom, eles estão basicamente a borrifar-se para o resto porque um gajo é um gajo e há sempre espaço para uma refeição grátis. Aqui, na Inglaterra ou no Suriname.



Além do mais ninguém no seu perfeito juízo vai apaixonar-se por uma fulana que publica algo do género:



procuro machos activos que me queiram comer como uma cachorrinha.


Assina: kadelinha_komilona.



Não quero com isto dizer que um gajo não goste de encontrar na sua gaja um pouco de kadelinha_komilona aqui e ali, e quem disser o contrário ou está a mentir com todos os dentes, ou então é gay.


O que acontece muitas vezes é que não falamos disto, nem elas falam connosco. Pelo pudor patológico que nos atormenta tudo o que foge à dita normalidade, ou simplesmente por receio de estragar algo que demorou tanto tempo a construir.



E até se percebe porquê. Que se chegue à frente o primeiro gajo que estando genuinamente interessado numa mulher com gato, não pense duas vezes quando à pergunta qual é o teu maior fetiche? seja surpreendido pela resposta: ser comida por dois gajos. E já agora que se chegue à frente a mulher que nas mesmas condições tenha a coragem de responder com honestidade.


Paradoxalmente a maior parte dos casais queixa-se da rotina quando questionados sobre o porquê da separação.

Mariana: Oh Bernardooo…


Bernardo: Diga querida..


Mariana: Oh querido já estamos juntos há tantos anos... Sabe o que me apetecia assim para quebrar a rotina?


Bernardo: Diga querida…


Mariana: Oh.. Você se calhar não vai gostar Bernardo…


Bernardo: Oh querida diga lá..


Mariana: Oh Bernardo, gostava que você me chamasse nomes feios quando ‘tá comigo, ‘tá a ver?


Bernardo: Nomes feios? Mas que nomes feios querida?


Mariana: Ai oh Bernardo,chame-me aquele nome que começa com “p”..


Bernardo: Com “p”? Você quer que lhe chame pindérica?


Mariana: Ai c’horror! Oh Bernardo é aquele nome que começa com “pu” e acaba em “ta”, ‘tá a ver?! Você também não percebe nada, que maçada!


Joana, mulher resolvida, 36 anos, sozinha e disponível, procura homem simpático, solteiro e de mente aberta para relacionamento casual e sem compromissos.

E porquê? Porque o amor às vezes é mesmo uma f###.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Mais Vale Sobrar do que Faltar





Fui há dias surpreendido por uma notícia curiosa divulgada pelo Correio da Manhã, mais virado para este tipo de fait-divers.


Um estudo tornado público por um grupo de urologistas da Coreia do Sul veio revelar que pode existir uma relação directa entre a mão direita, e o tamanho do pénis.


(…)


Vá, façamos uma pausa para que os leitores do Homem com Cão possam olhar de soslaio para a sua mão direita. Já está?


Primeiro que tudo debrucemo-nos sobre os prós e os contras deste estudo ter sido levado a cabo na Coreia do Sul.


Sendo uma das economias mais fortes do mundo, e um dos países mais avançados tecnologicamente, qualquer estudo anunciado na República da Coreia tem forçosamente de ser levado a sério. Porém, é sabido que os asiáticos são em média o povo com os pénis mais pequenos do mundo, e meus amigos contra factos não há argumentos. E o facto é que os sul-coreanos nesta matéria não têm mesmo muitos argumentos.


Mas gabo-lhes o afoito. Apresentar um estudo deste género na Coreia do Sul é hoje em dia quase o mesmo que o governo da Grécia fazer uma dissertação sobre o endividamento público. Duvido que exista uma grande base científica, mas pelo menos são originais.


Talvez porque têm espelhos em casa, e porque acharam que não valia a pena entrevistar muita gente, os urologistas sul-coreanos analisaram apenas 144 homens com mais de 20 anos, para chegarem à conclusão de que a mão direita é de facto reveladora do tamanho do instrumento.

De acordo com Tae Beom Kim, coordenador da investigação, a testosterona pré-natal exerce a mesma influência sobre a formação dos dedos e do pénis. Assim, quanto menor for a diferença entre o dedo anelar e o dedo indicador da mão direita, maior é o pénis.


(...)


Nova pausa porque neste momento os homens com cão estão de certeza a olhar para a mão direita. Outra vez. Não vale a pena puxar pelos dedos porque isso já não cresce mais, ok?


De facto de todas as variáveis analisadas só o tamanho dos dedos estava relacionado com o tamanho do pénis, e Beom Kim acredita que futuramente é para o indicador e anelar direito que as mulheres com gato terão de olhar quando quiserem antecipar o que lhes poderá reservar o destino.


Cabe a cada mulher com gato pronunciar-se sobre esta matéria. Há quem prefira não correr riscos, mas por outro lado haverá igualmente quem não dispense o friozinho na barriga do efeito Kinder Surpresa na altura de puxar pelos shorts. É um brinquedo, é uma surpresa e até pode ser de chocolate. Depende do sabor do preservativo.


É mais ou menos o mesmo que escolher independentes para os ministérios e secretarias de estado. Nunca se sabe muito bem o que vai sair dali, e neste aspecto Pedro Passos Coelho andou a distribuir ovos Kinder como um autêntico coelho da páscoa fora de época. Tal como Jorge Jesus que depois de ter levado dois aviões de jogadores para o estágio do Benfica na Suíça, deve andar com aquele friozinho na barriga sem saber se dali vai sair algum que se aproveite, ou não.


Para as mulheres com gato que não andam a prestar atenção ao tamanho dos dedos, é exactamente o mesmo friozinho na barriga que sentem segundos antes de puxarem os shorts rumo ao desconhecido. Não sabem se dali vai sair algo que se aproveite ou não, e clubismos à parte há sempre quem invoque o nome do treinador do Benfica nestas situações. Para o bem ou para o mal.

Há no entanto excepções. Por exemplo, na vizinha Coreia do Norte as mulheres com gato não chamam de certeza por Jesus, primeiro porque não sabem quem é o treinador do Benfica, depois porque Jesus não é o nome do filho de Kim IL Sung, o eterno presidente e Deus lá do sítio.

Mas também não devem chamar por ninguém porque como não há liberdade de imprensa e a internet é controlada pelo Estado, as norte-coreanas vivem felizes e contentes com os 9,66 centímetros correspondentes ao tamanho médio dum pénis erecto naquela zona do globo.

E como não há pacotes turísticos em conta para Pyongyang, é pouco provável que um pénis erecto naquela zona do globo seja de outro tipo qualquer que não dum norte-coreano.

Imagine-se a revolução cultural que não seria se um congolês tivesse uma erecção na Coreia do Norte. Os 17,93 correspondentes ao tamanho médio dum qualquer nativo do Congo, iam parecer um míssil balístico quando comparados com os 9,66 que as norte-coreanas foram ensinadas a ver como uma dádiva suprema do presidente eterno Kim IL Sung.

Provavelmente os quase 18 centímetros dariam para entreter duas ou três norte-coreanas durante algumas horas, antes delas perceberem que afinal há vida para lá da Coreia, mas os líderes militares estão atentos a este perigo e ao primeiro avistar dum congolês certamente iriam disparar a matar, para logo a seguir declararem guerra à República Democrática do Congo. Só por causa das coisas.

Nós por cá também somos muito preocupados com o tamanho das coisas. O tamanho da casa, o tamanho do carro, o tamanho do telemóvel, mas especialmente o tamanho do coiso.

E graças ao estudo desenvolvido pelos especialistas da Coreia do Sul temos agora esta ferramenta ao nosso dispor. Não precisamos mais de lançar um olhinho para o coiso do gajo que está ao nosso lado no chuveiro do ginásio, por exemplo.

Isto parece ridículo (e é mesmo), mas acontece muito frequentemente, e é popularmente conhecido entre os sexólogos como o síndrome do balneário, uma competição narcisista entre homens que definem a sua masculinidade em função do tamanho dos pénis.

É por estas e por outras que nunca tomo banho em balneários, além do mais não quero envergonhar ninguém que levanta 5 vezes o meu peso na prensa vertical.

Para nós, homens com cão, esta é uma preocupação antiga, e apesar de todas as mulheres dizerem que o tamanho não importa, eu ficava lixado se me perguntassem se tenho família na Coreia. E qual é o homem que não gostaria de ouvir Oh meu Deus! Tu nasceste no Congo?!

Em valores médios não estamos assim tão longe como os 5.410 kms que distam Lisboa de Kinschasa. De acordo com um estudo publicado em 2007 pelo sexólogo Nuno Monteiro Pereira, o tamanho duma erecção dum genuíno português representa qualquer coisa como 15,82cms. É um tamanho muito respeitável, e só a título de curiosidade é bem mais que os espanhóis (13,85), muito mais que os tipos da Moodys (12,90), e ligeiramente acima dos brasileiros (15,70).

Admito que para as mulheres com gato o tamanho do pénis possa parecer uma discussão narcísica, empolada pela indústria pornográfica que nas últimas décadas ajudou a mitificar falos do tamanho dos enchidos do Fundão, quando podia mostrar mulheres a deliciarem-se com orgasmos múltiplos enquanto brincam com um normalíssimo pénis de 16cms, não congolês portanto.

Teria sido bem mais saudável e instrutivo. Mas a verdade é que se um casal português subscrever o canal Venus para apimentar a sua vida sexual, o mais certo é a mulher com gato ter a mesma reacção que uma norte-coreana teria se descobrisse que há vida para lá dos 9,66.

E lá vinha o nome do treinador do Benfica à baila novamente.

Um gajo está ali com a sua gaja a ver um filmezinho, e passados 2 ou 3 minutos ouve um ai Jesus, e começa logo a sentir-se como se fosse o único gajo do prédio que não nasceu em Kinschasa.

E é nestas alturas que nós, homens com cão, costumamos ser reconfortados com a ideia do deixa lá querido, é pequenino mas é trabalhador.

Meus amigos, desenganem-se. O que elas não dizem a seguir mas pensam é: olha é pena é fazer greve tantas vezes.

A ideia de que o pequenino e trabalhador é suficiente para satisfazer o imaginário erótico duma mulher, é tão falsa quanto ouvir falar o Sócrates há uns meses atrás sobre a saúde financeira do nosso país, também ele pequenino e trabalhador. Meses depois disso aí está a ajuda externa porque o país pequenino e trabalhador simplesmente não deu conta do serviço.

E qual é o homem com cão que quer ajuda externa quando toca ao seu coiso?

A verdade é que para as mulheres com gato o tamanho importa mesmo, e não é só o comprimento, é sobretudo o volume que ocupa também. Qualquer erecção abaixo dos 13 ou 14 centímetros e já começa a ser preciso muita originalidade e muito amor para fazer com que a coisa e o coiso funcionem.

Afinal o estudo dos especialistas sul-coreanos não é assim tão descabido quanto isso, e quando ouvirem qualquer coisa do género “Ohh! Tens umas mãos tão lindaaas! Posso ver melhor?” preparem-se porque estão prestes a espreitar para dentro das vossas calças.


E como dizia a minha avó: mais vale sobrar do que faltar.

sábado, 25 de junho de 2011

Soluções de Água Quente

O meu avô sempre me disse, tu devias aprender era um ofício em vez de ires para doutor. A recomendação foi de tal forma persistente durante o meu período académico, que não foi difícil chegar a um ponto em que eu já conseguia antecipar o momento em que lá íamos de novo falar dos ofícios, porque na ideia dele trabalho nunca vai faltar a electricistas, canalizadores ou até mesmo àqueles fulanos que arranjam os estores.

E pese embora o meu avô nunca tenha sequer hesitado financiar os meus estudos, a verdade é que uns anos largos depois da sua morte, apareceu no meu caminho o tal mestre dos ofícios que ele tanto apregoava, a propósito dum esquentador que durante meses a fio insistiu em apagar-se a meio do banho.

Nesta altura do ano (n.d.r. verão) o transtorno nem seria assim tão grande, mas na força do inverno às 7h da manhã, ir da banheira até à cozinha com espuma nos olhos e com 7 graus positivos, para depois ficar ali uns 10 minutos a gelar e a pedir liga, vá lá ligaaaa como se o esquentador tivesse vontade própria… Bem, é coisa para deixar um tipo a pensar seriamente na vida.

Raios partam, deve ter enviado este fulano só para me atormentar a cabeça! Falo claro está do senhor dos esquentadores. E não sabendo ao certo como catalogar a profissão do senhor dos esquentadores, vamos chamá-lo de Bob dos Esquentadores.

O Bob dos Esquentadores era um fulano de boa estatura, anafado, pessoa de muito alimento, dos que não dispensam o bom do bitoque na hora do almoço regado com um belo jarro de vinho tinto. De bigode farto, barriga proeminente a pender sobre o cinto das calças, e com aquele ar manhoso de quem está a tentar fazer passar-se por uma pessoa séria.

Como qualquer Bob que se preze, este também trazia um colete cheio de pequenas ferramentas, uma caixa com ferramentas ainda maiores, e um aprendiz de feiticeiro que, estou certo, não hesitaria em atirar-se pela janela do 2º andar ao simples estalar de dedos do mestre guru dos esquentadores.

E nem foi preciso esperar muito para que as palavras do meu falecido avô começassem a ecoar de novo na minha cabeça, como uma assombração:

Bob dos esquentadores: Uiiii… Tem este modelo?

Aprendiz: Uiiii…

Eu: Ui? O que quer dizer com ui?

Bob dos esquentadores: Oh chefe é que estes modelos costumam dar uns problemazitos..

Aprendiz: Pois costumam!

Eu: Humm.. Uns poblemazitos? Que tipo de problemazitos?

Bob dos Esquentadores: Já “le” digo, deixe-me só tirar aqui a tampinha…

(pausa)

Bob dos Esquentadores: Ehpa oh chefe, isto não está com muito bom aspecto. ‘Tá a ver o que eu “le” disse? Tsss…

Aprendiz: Tsss..

Eu: Não está? Então? – respondi, um pouco a medo.

Bob dos Esquentadores: Só assim sem ver o resto “digo-le” já que deve ter o sensor avariado chefe
– retorquiu de olhos arregalados por cima do bigode oleoso, enquanto acenava com a chave de fendas ajeitando as calças que mais pareciam um dique prestes a ceder ao peso da barriga.

Eu: O sensor.. – ou seja, em bom português começava a tornar-se evidente que ia deixar ali o cu e as calças.

Em menos de 5 minutos um parafuso e duas pilhas depois, veio o diagnóstico:

Bob dos Esquentadores: Chefe, é o sensor. Isto anda na ordem dos 60€, mais as duas pilhas. Quer que eu “las” meta e arranje o esquentadorzinho?

Eu: Pronto, arranje lá o esquentadorzinho.. – um tipo vai dizer o quê?

Bob dos Esquentadores: Então olhe eu “faço-le” isto tudo … deixe cá ver … e vão 3… mais 15… Eu “dou-le” aqui um jeitinho e fica tudo p’los 70€. Se quiser factura é mais IVA.

Toma lá fresquinho. 70€ com jeitinho, sem papéis e em menos de 5 minutos, para mudar duas pilhas – que eu paguei – e desapertar um parafuso. Proporcionalmente nem o Ronaldo deve ganhar tanto em menos de 5 minutos. E quem é que ficou a rir com tudo isto? Fácil. O Bob dos Esquentadores, o aprendiz, e claro o meu avô.

Depois de pagar, e já com o Bob dos esquentadores a caminho do merecido bitoque – aproximava-se a hora do almoço -, questionei-o se teria sido um valor justo a pagar para colocar duas pilhas, e afinar um sensor. A resposta deixou-me incapaz de contra-argumentar:

Depende se quer ou não continuar a tomar banho com água fria.

Talvez percebendo que estava resignado mas não convencido, o fulano ainda fez uma pausa e acrescentou:

Oh chefe, as pilhas até você podia mudar e eu só “le” cobrei o valor de custo, e a deslocação. Afinar o sensor é que não é p’ra todos, ‘tá a perceber?

Perfeitamente. O valor das coisas tem sempre de ser colocado em perspectiva. Por exemplo, só quem já por muitas vezes se sentiu como uma ervilha pré-congelada às 7h da manhã em pleno inverno, é que pode verdadeiramente valorizar a falta que faz ter um bom esquentador em casa, ou pelo menos um que funcione.

Da mesma forma só quem já experimentou aquele clik instantâneo entre duas pessoas sabe verdadeiramente como é o calor dum beijo, que poucos segundos depois faz-nos sentir a ferver por dentro e por fora, envolvendo-nos de forma viciante como a água quente quando percorre o nosso corpo.

No fundo, as relações entre homens com cão e mulheres com gato são assim, como os esquentadores inteligentes: quando funcionam a chama é instantânea. Como disse o poeta, é fogo que arde sem se ver. Duvido no entanto que ele estivesse apensar em esquentadores quando escreveu isto.

Quando não funcionam, na melhor das hipóteses sobra-nos os duches com água tépida que nunca serão suficientes para fazer esquecer que temos de fechar a torneira.

O único senão é que nas relações, ao contrário dos esquentadores, não há quem por nós consiga fazer seja o que for, quando o sensor simplesmente não funciona. E que jeito que dava ter um Bob dos esquentadores à distância dum telefonema.

Bob dos Esquentadores: Or’então diga lá o que se passa amigo!

Amigo: Não sei explicar, acho que não há clik.. Não há chama, percebe?

Bob dos Esquentadores: Ohhh amigo claro que percebo, aliás assim sem ver “digo-le” já que deve ser do sensor!

Amigo: O sensor.. E quanto é que me vai custar o arranjo do sensor?

Bob dos Esquentadores: Eu "faço-le" aqui um jeitinho, e fica tudo p'los 70€, mais IVA se quiser factura.


Amigo: Não acha isso um bocado caro?


Bob dos esquentadores: Isso depende se você quer continuar a tomar banho com água fria, ou não.

Caramba, o meu avô é que tinha razão. Devia ter aprendido um ofício. Just in case..

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

As relações e os recibos verdes


Aí estão os recibos verdes electrónicos. A partir de agora a DGCI comunica com os contribuintes por via electrónica, abandonando o velhinho livro de recibos verdes em papel.

Por acaso o livro de recibos verdes sempre foi coisa que a mim me causou particular estranheza. Em primeiro lugar porque não é verde, o que por si só constitui um dos maiores paradoxos da história fiscal do nosso país. Depois vem sem aquela folhinha que divide os copiativos, e que dá um jeito tremendo quando queremos passar um recibo, e não 3 ou 4 duma só vez.

Em boa verdade já nada disto me faz confusão, mas a decisão da DGCI trouxe-me uma nova perspectiva do livrinho de recibos com o qual tenho convivido nos últimos anos.

Actualmente em Portugal dois em cada três casamentos terminam em divórcio, e desses dois há um casalinho que não chega sequer a descongelar o bolo de noiva no final do 1º ano. Pessoalmente acho a ideia um completo nojo, já para não falar nos problemas de partilhas que esta questão levanta. Como é que um casal divide 2 kgs de bolo de noiva congelado? Com uma motoserra? E será boa ideia introduzir uma motoserra entre um casal desavindo e prestes a separar-se? Pois, se calhar não é.

Para nós faz cada vez mais sentido o antes só que mal acompanhado, algo que entretanto evoluíu para um mais vale acompanhado quando me apetece do que completamente só. O que antes era uma ideia peregrina, transformou-se num conceito de vida que cativa cada vez mais mulheres com gato país fora.
Bom, excepto na beira interior onde este tipo de pensamento libertino ainda dá direito a apedrejamento na praça pública, mas adiante.

A verdade é que estamos cada vez mais sozinhos por opção, e acompanhados by request. Dividimos a cozinha, o sofá, o chão da sala, a cama, mas nunca o copo onde só fica uma escova de dentes, ou o roupeiro, estrategicamente atulhado de roupa e sem um único cabide disponível.
Vês? Não há espaço para ti na minha vida, mas podes vir cá abrir a porta do meu roupeiro de vez em quando.

E quanto mais abrimos a porta do mesmo roupeiro mais depressa nos apercebemos de que ali não há mesmo espaço para nós. Mas na maior parte das vezes reagimos a isso também com alívio, e não apenas com resignação ou tristeza. Não haver espaço para pendurar um pouco da nossa vida significa não ter de assumir compromissos, não ter de dizer não a tudo o resto, significa não correr riscos, não sair magoado e significa acima de tudo não ter de dizer novamente a palavra amo-te.

E neste aspecto vejo nos homens com cão uma ingenuidade romântica que não vejo na maior parte das mulheres com gato da geração Sex and the City.

Às Miranda Hobbes por muito que lhes faça falta amar de novo alguém, o receio de se exporem e sairem de novo magoadas simplesmente não compensa sair da zona de conforto, e por isso vão mantendo o closet bem arrumadinho e sem espaço algum para pendurar um único camiseiro que cheire a Tom Ford ou Jean Paul Gaultier.

Já os homens com cão raramente pensam um pouco mais à frente que a cabeceira da cama, e como tal avançam destemidos em direção ao alvo qual kamikaze a bordo dum zero japonês, a gritar banzai no meio duma chuva de tiros de artilharia.

Nós não pensamos que podemos vir a apaixonar-nos, como também não pensamos na possibilidade de não correr bem, e 2 ou 3 meses depois sermos confrontados com o sentimento de rejeição e com a solidão. Homem que é homem joga futebol de praia num campo minado no Afeganistão, como já apanhava banhos de sol debaixo duma chuva de setas no meio duma batalha medieval há 700 anos atrás. E sem protector solar.

Ou seja, somos estúpidos por natureza. Paradoxalmente é essa estupidez que nos dá a capacidade de sermos ingénuos e românticos, enquanto que as mulheres com gato munidas dum 6º sentido letal são incapazes de tamanha estupidez, e é por essa razão que a maior parte das Miranda Hobbes modernas mantém uma visão mais cínica dos relacionamentos, sem espaços por preencher no closet, e completamente concentradas nas suas carreiras, e nos filhos se os houver.

Perante o incerto o homem com cão avança com um desconcertante logo vemos, deixando o destino entregue à sorte a troco duma queca. Já as mulheres modernas pouco dadas ao esoterismo reconfortante dos Paulos Coelhos da vida, ao logo vemos respondem com um já vi. Como em já vi esse filme antes, e tu não fazes parte querido.

Claro que esta muralha intransponível é muitas vezes feita de fumo e desfaz-se com um simples sopro, no meio da solidão e do silêncio, por entre linhas escritas mil vezes de maneiras diferentes da Margarida Rebelo Pinto, entrecortadas por lágrimas e Ferreros Roché. Como a própria autora diz para quem vive a sonhar é mais fácil viver. E vai mais um chocolatinho.
Esse lado fragil não nos é permitido ver. Para nós o closet vai estar sempre cheio, e é por isso que ocasionalmente continuamos a espalhar a roupa pela casa, ao invés de tirarmos uma camisa clássica de algodão Ralph Lauren sem um único vinco, dum cabide que está do nosso lado do roupeiro.

Há 4 anos a recibos verdes na empresa onde trabalho muitas vezes pergunto-me o que mais preciso de fazer para entrar para os quadros. Depois pensando bem, porque razão a minha entidade patronal iria abdicar dum colaborador extremamente competente, absolutamente compenetrado, 100% disponível, profissional e acima de qualquer reparo? Por razão nenhuma. E é por isso que continuo a ser um colaborador a recibos verdes.

Com as mulheres com gato e os relacionamentos modernos passa-se mais ou menos a mesma coisa. Partilham o melhor nos melhores momentos, e esperam dos homens com cão o mesmo tratamento em troca. Disponibilidade total quando é exigido, competência e dedicação acima de qualquer reparo, sem complicações e sem correr riscos. Mas sobretudo sem direito a meter baixa quando as coisas não correm bem, e sem litígio legal quando há necessidade de quebrar o vínculo contratual.

No meu trabalho há um pequeno bengaleiro onde os efectivos penduram os casacos e as camisas clássicas de algodão, para terem sempre uma muda de roupa quando entram em directo no estúdio, ou em reportagem.

E ali como no closet não há espaço para mais ninguém.

sábado, 12 de junho de 2010

Livro de Reclamações


As prometidas novidades têm sido atrasadas pelo volume de trabalho quase desumano a que tenho estado sujeito nas últimas semanas, mas como não há fome que não dê em fartura apelo à compreensão de quem me lê para aguardar um pouco mais.. Tentarei compensar com motivação redobrada e temas ainda mais polémicos!


Até lá reclamem à vontade! rsrsrs :)

domingo, 30 de maio de 2010

Check-in


O mês de Maio trouxe mais um fim-de-semana de trabalho.

O destino foram as planícies alentejanas, e na bagagem coloquei apenas aquilo que achei necessário para a minha curta estadia. Sem surpresas quando cheguei ao hotel constatei que afinal tinha trazido roupa a mais, e não cheguei sequer a desfazer metade da mala.

Quando viajo gosto de ir preparado para qualquer eventualidade: um par de ténis para não aparecer no jantar de botas, um ou dois pares de jeans suplementares, duas camisolas para noites mais frias, o impermeável quando os senhores do tempo dizem que vai chover, e pelo menos uma t-shirt de manga curta porque isso raramente acontece.

Também costumo levar uns anti-histamínicos não vá ser obrigado a dividir a cama com pequenas metrópoles de ácaros, o que no Évora Hotel é de todo inevitável uma vez que o soalho dos quartos está forrado a alcatifa. Parece que estou a vê-los aos saltos e a treparem pelas minhas pernas. Blherk..

Cheguei ao hotel faltavam poucos minutos para as 22h. Já com o voucher na mão e de mochila às costas aproximei-me das escadarias que dão acesso ao átrio. Pelo caminho ia trocando impressões com um colega em Lisboa, garantindo que tudo tinha corrido bem com o envio por satélite a partir da RTP Évora.

Nisto, apercebo-me dum ajuntamento invulgar de mulheres com gato no átrio, bem em frente à porta principal do hotel. Vim a saber poucos minutos mais tarde junto da recepção que tratava-se duma despedida de solteira. Medooooo..

De passo seguro avancei em direcção às escadas. Eis senão quando instala-se um inesperado frenesim:

Um homem! Um homem! Uuuuuh!

Bom, talvez esteja a exagerar um pouco, mas confesso que a risota colectiva causou-me alguma surpresa e desconforto. E nestas circunstâncias, o que fazer?

1. Avançar destemido em direcção ao grupo como se nada fosse.

2. Tentar não tropeçar nos degraus das escadas, enquanto avança destemido em direcção ao grupo como se nada fosse.

3. Fingir que se enganou no hotel e fazer o check in mais tarde.

4. Pedir o número de telemóvel a todas.

5. Sair-se com um espectacular: olá, acabei de chegar de Marte, quem quer subir até à minha nave espacial?

....

Bom, a resposta certa é: nenhuma destas opções.

Embora seja muito importante não tropeçar nas escadas, quando confrontado com uma situação de risota colectiva a primeira coisa que um homem com cão deve fazer, sempre e em qualquer circunstância é...

...

...

Verificar se tem os botões das calças desabotoados! Nem mais. E foi exactamente isso que eu fiz, mas de forma discreta como é óbvio.

As mulheres com gato não perdoam neste tipo de situações, e é sabido como o mais pequeno erro pode levar a um sem número de suposições, capazes de fazer cair por terra a mais fortificada auto-estima masculina:

Mulher com Gato 1: Olha-me este com os botões desabotoados!

Mulher com Gato 2: Que horroooor!

Mulher com Gato 3: Aposto que é dos que deixam o tampo da sanita levantado também!

Mulher com Gato 1: Tem quem o baixe por ele, de certeza.

Mulher com Gato 2: Deve ser a mãe. Tem aspecto de ainda viver com os pais.

Mulher com Gato 3: E é claramente a mãe quem escolhe a roupa. Já viram aquela camisa?

E é assim num ápice que a nossa vida começa a andar para trás sem que tenhamos sequer consciência disso.

Felizmente não foi este o caso. Estava tudo no lugar e os botões bem apertados. Afinal tratou-se apenas dum grupinho inocente de amigas que beberam demais ao jantar, e que estavam por ali no Évora Hotel, completamente sozinhas, durante tooodo o fim-de-semana, numa despedida de solteira. Situação perfeitamente inocente, portanto.

Os hoteis são férteis neste tipo de acontecimentos bizarros. Lembro-me duma ocasião em Castelo Branco ter passado uma noite inteira em claro, no pior hotel onde alguma vez fiquei hospedado. As paredes eram tão finas mas tão finas que o mesmo prego dava para pendurar dois quadros. Um de cada lado.

Azar dos azares, no quarto ao lado estava um casal maratonista, daqueles para quem o coelhinho da Duracell é um boneco giro e tal, mas as pilhas acabam sempre cedo demais.

A dada altura apeteceu-me bradar lá para o outro lado:

Olhe! Agora a senhora escusa de gritar a dizer que vai se vir porque já toda a gente neste piso sabe disso, ok?!

Nos hóteis tudo pode acontecer, e o mais engraçado é que normalmente o tudo acontece mesmo. É uma espécie de zona franca nas relações interpessoais.

Da mesma forma que as zonas francas procuram estimular as trocas de mercadorias livres de quaisquer taxas alfandegárias, nos hoteis estimula-se tudo o resto sem que se pague mais por isso. É como nas Caraíbas: todo incluido!

Aliás, numa altura em que se discutem com grande preocupação os sintomas suícidas da sociedade portuguesa, que está cada vez mais longe da taxa de natalidade da UE, pergunto-me, como é que ainda ninguém se lembrou de trancar os portugueses em hoteis durante umas semanas?!

Duma só vez resolviamos o problema na construção civil, porque teriamos forçosamente de construir mais hoteis para hospedar o país inteiro; acabavamos com o desemprego porque iriamos necessitar de muito mais mão-de-obra, e para isto não há kosovares e romenos que cheguem; daqui a 9 meses Portugal estava cheio de bébés; e com um pouco de sorte salvavamos a segurança social e retiravamos o país da crise. Tchanaaan!

Mas voltando à questão central, existe de facto uma certa moral permissiva quando estamos dentro dum hotel, e nesse sentido os padrões da moral tradicional têm tendência para serem frequentemente esquecidos. Se não na sua totalidade pelo menos em parte enquanto durar a estadia.

Nos hoteis essa moral permissiva sente-se pelos pequenos gestos que as mulheres com gato habitualmente não fazem no seu dia-a-dia.

No mini-mercado não dizem bom dia caso se cruzem com um qualquer homem com cão, mas isso acontece com frequência nos hoteis quando por exemplo esperamos pelo elevador, ou quando nos sentamos ao vosso lado nas cadeiras das piscinas.

Na fila das finanças dificilmente uma mulher com gato vai sorrir para quem estiver ao seu lado, mas no buffet ao jantar esse gesto sai com facilidade e elegância desconcertantes.

Nas minhas brincadeiras de miudo tinha sempre uma estratégia de recurso quando estava prestes a vergar-me à humilhação de perder um qualquer jogo entre amigos. Eu chamava-lhe o essa não valeu. Claro que depois teria de explicar porque razão não valeu, mas o jogo não podia acabar ensombrado pela dúvida. A jogada roçava a batota, mas como em tudo na vida a diferença entre a verdade e a mentira está no poder de argumentação.

Os hoteis fazem-me lembrar esses tempos:

Amiga 1: Querida, vou confidenciar-te uma coisa..

Amiga 2: Aii conta!
Amiga 1: Lembras-te daquele gajo podre de bom que conhecemos na piscina do hotel?

Amiga 2: Claro que me lembro. O Raaaaaul..

Amiga 1: Pois, o Raaaaaul..
Amiga 2: Aii, não me digas!

Amiga 1: Digo sim, e foi tão bommmm!

Amiga 2: Amiga fico tão contente por ti!

Amiga 1: Obrigado querida, mas estou a sentir-me tão mal agora..
Amiga 2: Oh querida, foi no hotel durante as nossas férias. Essa não valeu.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

"Pai, vou namorar com a Beatriz!"


Ontem saí com o meu filho para um evento social. Nada de mais, apenas um jantar de aniversário duma pessoa amiga ao qual não podia de forma alguma faltar. O fim-de-semana era para tomar conta do filhote, e por isso acabei por levá-lo comigo.

Chegado ao restaurante constatei que a maior parte das pessoas também traziam companhia, mas no meu caso o Martim era o único que não conseguia tocar com os pés no chão!

A ternurenta imagem do meu filho sentado na cadeira com as pernas entrelaçadas a baloiçar, fez-me pensar no mais recente anúncio da Sumol, e foi de facto com indisfarçavel embaraço que constatei o seguinte: para mim sair à noite é cada vez mais ir até ao caixote do lixo ao fundo da rua, e já está.

A minha vida social não está parada, está ligada à máquina a vegetar. Entre isto e ficar a ver quanto tempo demora um caracol ferido de morte a subir ao topo dum eucalípto é difícil escolher. Sem ofensa para o caracol claro.

Claro que nada disto acontece porque acordei num belo dia de manhã e disse Ooh! Era tão giro ser virgem outra vez!

O problema coloca-se duma forma aparentemente simples, mas paradoxalmente sem solução possível, senão vejamos:
O dia tem 24 horas, mas dez horas e meia de 2ª a Sábado estão ocupadas com trabalho. Sobram treze horas e meia, tempo mais que suficiente para as minhas coisinhas, certo? Errado.

Continuemos, mas sem contabilizar o Domingo, dia que reservo para ir ao golfe, almoçar fora, jogar à bola e fazer tudo isto e montes de outras coisas que todos os pais gostam de fazer com os filhos. Excepto quando estou a trabalhar, porque também tenho Domingos assim.

O dia começa quase sempre muito cedo, por volta das 7h. A rotina repete-se e depois da barba, do banho e da roupa, desço para comprar pão e tratar do pequeno almoço e lanche do Martim. Às 8h acordo-o, e depois de 10 minutos na ronha finalmente convenço-o a arrastar-se até ao sofá da sala, quase sempre subornado pelos desenhos animados da RTP2. Às 8.30h começo a vesti-lo, 5 minutos depois vai lavar os dentes e pentear, e se tudo correr bem às 8.50h estamos a sair de casa já a caminho da escola.

Sobram 13 horas e meia mas na verdade são apenas 11 horas e meia porque o despertador toca às 7h da manhã. Todo o santo dia carambaaa!

Quando chegam as 19.30h é altura de regressar a casa, mas a essa hora o trânsito reclama pelo menos 30 minutos pelo caminho. Mais duas horas para o banho, jantar e lavar a louça, e há que tratar da roupa para o dia seguinte, tarefa que exige pelo menos mais 30 minutos nos melhores dos dias.

Se há coisa que ainda não sei fazer em tempo útil é passar a ferro. Deviam inventar uma espécie de Bimby mas para a tábua de engomar. Tornava tudo tão mais simples!

Ora bem, sobram 8 horas e meia mas tenho a ideia de que estou a esquecer-me de qualquer coisa.. Ah, é verdade! Tenho de dormir! É isso!

O sucesso da minha vida pessoal está portanto dependente da única coisa que nos permite manter a saúde física e mental, bem como as nossas competências profissionais e boa-disposição: o sono.

Mais dum lado significa menos do outro, e bem vistas as coisas – usando uma linguagem mais grosseira – se descanso a cabeça de cima deixo a outra de baixo entregue à solidão e ao abandono. ‘Tadinha..

O drama maior é que mais sexo – ou qualquer sexo já agora – significa menos horas de sono. Menos horas de sono significam mais cansaço, que por sua vez levam a pior sexo e menos horas de sono ainda! Nas palavras do mítico Artur Albarran, o drama, o horror..

Olhando para a minha rotina diária, e mesmo que reserve para mim umas míseras 6 horas úteis de sono, restam-me apenas duas horas e meia para investir na minha vida social. E a pergunta que se coloca é esta:
O que é que está ao alcance de qualquer homem com cão em 150 minutos apenas?
A resposta é simples. Depende da mulher com gato.

Se levarmos em linha de conta que a minha Kangoo não consegue ultrapassar os 110 kms/h a direito em dias com pouco vento, 30 minutos de caminho mais o estacionamento dão-me para chegar a Lisboa quanto muito. Depois é preciso regressar, e no ir e voltar subtraimos 60 minutos aos 150 disponíveis. Sobram 90 minutos para um café. Dramáticoooo!

Entre os olás, os beijinhos, a conversa para quebrar o gelo, e o ficar mais à vontade gastam-se pelo menos uns bons 30 minutos de muito boa conversa, e já não é para qualquer um.

Ou seja, partindo do princípio de que tudo corre bem nos primeiros 30 minutos, e que em meia-hora é possível deixar uma mulher com gato completamente à vontade e disponível, sobram uns incríveis 60 minutinhos para conseguir fazer tudo isto:
Criar o clima certo para o primeiro beijo, perceber quem quer ter a iniciativa, decidir quando tomar a iniciativa, dar o tal primeiro beijo, fazer com que não seja o último, perceber quando é que se pode meter as mãos, e sobretudo quando é que devemos parar e deixar que o silêncio sugira e agora? sem esquecer de pagar a conta do café.

E mesmo que tudo corra bem até aqui, é inevitável não começar a roubar horas à almofada depois disto, e eram só 6 lembram-se? Nao é facil.

Claro que tudo isto depende da mulher com gato, e se há quem felizmente faça do sexo um assunto sério que deve ser experimentado sem constrangimentos emocionais e com sentido de humor, há por outro lado há quem entenda o sexo como algo de terrivelmente sério, e que só faz sentido ser vivido quando existe um sentimento maior e mais nobre, chamado amor. E ai de quem diga o contrário. A fogueira está logo ali a fumar em lume brando.

Nestes casos muito sérios (e muito aborrecidos também), o sexo raramente é visto como um instrumento de prazer para os dois, mas quase sempre como um prémio:

Apaixonado Recente: Ora bem, então se eu levar o amor isso dá-me direito a quê?

Senhor da Loja: Ehpa se levar o amor tem tudo incluído!

Apaixonado Recente: Ehh! Tudo mesmo?

Senhor da Loja: É como lhe digo! Melhor que isto só o México em tempos de gripe!

Apaixonado Recente: Espectáaaculo! E tenho direito a sexo também?

Senhor da Loja: Oh meu amigo! Quando se ama é a qualquer hora!

Apaixonado Recente: Ehpa, mas eu não amo a outra pessoa..

Senhor da Loja: Oh homem, diga que gosta muito pronto. É quase o mesmo.

Apaixonado Recente: E depois como faço se acabar mais tarde?

Senhor da Loja: Oh homem, olhe diga que estava confuso e que pensava que era amor. ‘Tá sempre a acontecer.

E é exactamente isso, está sempre a acontecer.

Se por um lado é certo e sabido que no sexo os homens comem o que podem e as mulheres comem o que querem, no amor quem anda à chuva molha-se, e é muitas vezes a obrigação de chegar a um relacionamento mais profundo e a necessidade de validar sentimentos que acabam por destruir as relações, tudo porque ainda existem mulheres com gato que continuam presas a ideias preconceituosas e moralismos obsoletos, preferindo ocultar o prazer em vez de revelar esse mesmo prazer.

Não me entendam mal, nada tenho contra o amor. Acredito plenamente na ideia de que um dia irei voltar a percorrer esse caminho, mas também acredito que existem outras formas de satisfação e realização pessoais, e em 60 minutos apenas não creio que a nobreza dos sentimentos seja suficiente para subverter as leis físicas da atração.

E essas são muito simples, e funcionam de forma instantânea quando dois corpos se atraem. Quanto muito basta juntar um café.

Quando terminamos o jantar, e já a caminho de casa, o meu filho confidenciou-me no carro que na 2ª Feira vai ter um jogo de futebol importantíssimo até aos 3, com um coleguinha lá da escola. A ideia nem sequer foi deles mas sim da Beatriz, e é muito simples: quem ganhar namora com a Bia.

É desconcertante a forma como os miudos resolvem os problemas dos adultos.