quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Venha cá!

Há relativamente pouco tempo estava eu a navegar nas redes sociais, e eis senão quando dou de caras com uma daquelas fotos que valem por mil palavras.

Fiquei ali estupefacto a olhar para aquilo enquanto me perguntava ehpa será que era mesmo esta a ideia?

À partida seria mais uma foto igual a tantas outras. Uma mulher com gato nos seus trintas e tais, loira, com um metro e sessenta e pouco, posava de forma sugestiva no interior dum hipermercado, em plena área comercial.

Pronto ok, a senhora tirou dois minutos das compras e resolveu posar para a máquina entre a secção dos congelados e a charcutaria. Convenhamos, não é muuuito normal mas aceita-se.

Pior mesmo foi o sítio escolhido dentro do hipermercado, junto à arca dos produtos do dia. E lá estava a menina a tentar transmitir aquela imagem sedutora e convidativa, quase como se duma campanha publicitária se tratasse.

Só faltava a legenda por baixo: aqui é tuuudo mais barato. O gosto é duvidoso mas já vi pior em televisão.

Mas não foram o sítio ou as circunstâncias que me deixaram estupefacto. Não. Apesar de toda aquela extravagância, esta seria ainda assim mais uma foto, não fosse a legenda inscrita na própria arca refrigeradora.

Então dum lado tinhamos a menina na pose sedutora e convidativa, e do outro a dita arca refrigeradora, onde um pouco mais abaixo podia ler-se o seguinte:

Carne Fresca

Ora bem, olhando para isto do ponto de vista do personnal advertising, esta mensagem está no mínimo a roçar a genialidade.

Numa altura em que cada um de nós se preocupa cada vez mais com a imagem, e há quem gaste rios de dinheiro em health-clubs, day spas, e em personnal trainers, houve quem se lembrasse de ir até ao hiper mais próximo, encostar o rabo ao arrefecedor dos produtos do dia, e aproveitar a carne fresca em rodapé para se promover como algo fresquinho, suculento e muito comestível.

Até pode ser um caso flagrante de publicidade enganosa, mas há que admiti-lo, está genial!
O problema aqui está na forma como o vulgar homem com cão olha para uma imagem deste género, e neste domínio a mensagem pode ter várias interpretações, senão vejamos os seguintes exemplos:

Carne fresca.. Este letring está horrível e se está dentro duma arca refrigeradora é óbvio que a carne está fresca não?! Daaaah!

Este é um homem com cão do tipo gay.
Reparem como ignorou por completo a mulher com gato na pose sedutora e convidativa, e centrou-se apenas no aspecto gráfico da mensagem, uma coisa importante para os homens com cão gays, sabendo de antemão que têm todos a mania que são decoradores de interiores.

Há cada vez mais homens com cão que vão e não voltam, e porque adoram fazer compras a possibilidade de você se encostar a uma arca refrigeradora para a pessoa errada é, neste caso, substancialmente elevada.

Carne fresca.. Por acaso sabia bem um bifinho agora com aquele molhinho de cogumelos e natas que a minha mãe faz tão bem..

Este é o Homem com Cão do tipo tótó.
Neste exemplo a mulher com gato na pose sedutora e convidativa continua a ser ignorada, e a ideia da carne fresca rapidamente fez lembrar os bifinhos com cogumelos da mamã. Mais tótó do que isto é impossível, e à semelhança do que acontece com o exemplo anterior também aqui a mulher com gato loira e poderosa não faz qualquer diferença, porque o homem com cão desta natureza sabe que ela não está lá por causa dele.

As hipóteses de vir a encontrar este tipo de homem com cão são pouco menos que remotas, a menos que esteja a ajudar a tia-avó a carregar o cesto das compras.

Carne fresca.. O que tu queres sei eu! Comia-te toda!

O Homem com Cão macho!
Aqui a ideia da arca refrigeradora ter boa carne e realmente fresca não chega sequer à parte do cérebro que processa o pensamento analítico, e não chega porque o homem com cão em causa simplesmente não está a pensar com o cérebro.

Neste exemplo a mulher com gato está lá porque ele existe, e a julgar pela pose sensual e convidativa ela deve gostar pouco deve.

A possibilidade de encontrar um homem com cão desta estirpe num qualquer hipermercado é muito elevada, e se não fossem quase todos casados rapidamente morreriam à fome porque em última análise esqueciam-se de ir à arca buscar comida.

Carne fresca... Humm.. Sem dúvida alguma, nunca te tinha visto por aqui..

O Homem com Cão oportunista.
Este tipo de homem com cão é comummente associado ao mito urbano que tornou célebre a figura dos homens com um carrinho de compras, um bébé lá dentro, e sem aliança no dedo. Estamos a falar do topo da cadeia alimentar. Medooooo..

Estes homens com cão habitam as planícies dos hipermercados, o seu território de caça predilecto.

Dominam as técnicas dos descontos no talão de compras, e escolhem as caixas com uma precisão cirúrgica, optando sempre por colocar o carrinho entre um casal de idosos e a sua presa. É garantido que vão ter tempo suficiente para preparar o ataque, até porque a maior parte dos idosos perde-se a contar as moedas, não usam multibanco e conhecem sempre alguém que conhece a rapariga da caixa.

É frequente encontrarmos este tipo de homem com cão nas superfícies comerciais, quase sempre acompanhados pelo sobrinho, ou pelo filho. Não têm muita pressa na forma como se deslocam pelos corredores, e estão sempre a brincar com o miudo, o que dinamita automaticamente quaisquer defesas das incautas mulheres com gato.

Ohh querida, nós não precisamos de carne fresca lá em casa?

Já estão a ver que tipo de Homem com Cão é este, não estão?

O Homem com Cão casado.
Este é um tipo de homem com cão que normalmente faz do carrinho um prolongamento da sua barriga.

O homem com cão casado precisa de controlar as operações, e é por isso que gosta de conduzir o carrinho das compras. Até ao hiper é ele quem conduz o carro da família, depois assume o comando do carrinho, e apesar de não ser visto nem achado no que à lista das compras diz respeito, o carrinho esse é só dele.

Normalmente segue atrás da mulher, o que é bastante conveniente porque permite-lhe controlar quem passa, e quando confrontado com a tal carne fresca costuma ficar ligeiramente apático, babando-se ocasionalmente.

É muito frequente encontrá-lo nas grandes superfícies comerciais, destacando-se dos outros com relativa facilidade porque está quase sempre rodeado de 2 ou 3 índios a quem chama filhos, e arrasta o carrinho das compras com algum esforço.
Ora este tipo de fauna também habita as redes sociais, cada vez mais importantes no que ao personnal advertising diz respeito.

Publicar uma foto na nossa janela para o mundo pode parecer inconsequente, mas a verdade é que a nossa imagem depende em grande parte daquilo que projectamos em quem nos rodeia, como se dum espelho se tratasse.

Hoje em dia as redes sociais confundem-se cada vez mais com os hipermercados. Há de tudo e para todos os gostos, sem esquecer a secção dos produtos frescos do dia. Aliás, manobra genial de co-branding seria o Pingo Doce associar-se ao Netlog, ou ao Hi5, e sempre que abrisse a página de acolhimento da rede social aparecia o jingle: pin-go-do-ce-ve-nha-cá!

E na maior parte das vezes basta fazer como os senhores do pingo doce dizem, e ir lá! Pessoalmente não tenho nada contra a carne fresca. Há momentos para tudo desde a bela da bifana ao requintado rosbife.
Uma amiga minha disse-me uma vez algo que tão cedo não vou esquecer. Um bife do lombo pode passar por entremeada se quiser, mas uma entremeada nunca será um verdadeiro bife do lombo.
Cada vez dou-lhe mais razão. Difícil não é encontrar os produtos frescos do dia com descontos no talão, mas encontrar quem nos faça sentir dedicados a fazer as nossas comprinhas sempre no sítio do costume..

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

2010

A situação repetiu-se vezes sem conta no passado mas desta vez era impossível disfarçar a ansiedade que se apoderava de mim a cada segundo.

Procurei esconder a inquietude que me toldava o espírito diminuindo a importância do momento.
Disse para mim próprio já fizeste isto vezes sem conta, é só mais uma, mas na realidade sabia que que desta vez tudo seria diferente, e depois disso nada ficaria igual. Conseguia senti-lo, talvez como nunca o senti em circunstância alguma no meu passado recente.

A impaciência com que vivia esses últimos momentos contrastava com a absoluta tranquilidade com que ela olhava para mim. Impávida e serena, confiante e perturbadora. Confesso que isso agitou-me ainda mais, e naquele instante tornou-se claro que era ela quem tinha o controlo emocional da situação.

Avancei decidido mas incerto quanto ao desfecho dum momento que assumia contornos cada vez mais angustiantes a cada segundo. Toquei-lhe ao de leve primeiro, depois com mais intensidade e confirmei os meus piores receios.

Oitenta e quatro e meio! Foi exactamente aí que parou o ponteiro na primeira vez que subi à balança em 2010!

Caramba! Pronto ok, eu já esperava algum peso a mais depois do natal e da passagem de ano, mas 3 quilos e meio em pouco mais de 8 dias? Helloo??

Sua cabra! injuriei em voz alta enquanto observava estupefacto o ecrã digital da balança a imobilizar-se nos 84,5kgs. E de nada me valeu colocar-me em biquinhos de pés! É rídiculo eu sei, mas um homem quando está desesperado é capaz de quase tudo.

Àquele momento atroz só faltou mesmo a imagem no espelho do Artur Albarran a dizer estas são imagens reaaaais! para o cenário ficar completo dum surrealismo capaz de rivalizar com um qualquer quadro de Dali ou Magritte.

Portanto, foi assim que eu entrei em 2010, com 3 quilos e meio a mais em relação aos 81 kgs de 2009. Dito assim nem parece muito mal. Dá aquela ideia de que fui ganhando 9 gramas e meia por dia durante os 365 dias do ano, quando na realidade devo ter acumulado aí umas 437 gramas por dia em pouco mais de uma semana.

Provavelmente ainda não devo ter terminado a digestão das broas de mel, do bolo inglês, do tronco de natal, da molotof, da tarte de natas, da tarte de amêndoa, dos chocolatinhos salpicados pela mesa, da lampreia, das filhós, do bolo rei e das azevias de gila que devorei na noite de natal. Provavelmente não. Blheerk..

Por esta altura gostaria de deixar um sentido obrigado à minha mãe, que fez questão de repetir oh filho come come que estás tão magrinho. E continuou a insistir mesmo quando praticamente não havia quase nada para comer. Hummm..

Diz o povo e muito bem casa roubada trancas à porta, e foi com este espírito que acabei por encontrar um sítio na net que oferece 10 dicas para prevenir o excesso de peso neste período festivo. Pena só ter encontrado isto 12 dias e 3 quilos e meio depois do natal, mas mais vale tarde que nunca.

O giro nisto tudo é que este é um sítio feito por mulheres com gato, e para mulheres com gato, ou não estivesse alojado em www.paramulher.com.pt

Não querendo beliscar o mérito de quem encontrou tão brilhantes soluções, confesso que é com perplexidade que olho para algumas das 10 sugestões apresentadas neste sítio, senão vejamos:

1. Tome 5 refeições por dia nos dias prévios à véspera de natal, no natal e na passagem de ano.
Ora bem, vamos então contabilizar 5 refeições por dia nos dias 23, 24, 25, 31 e 1, somadas às habituais 3 refeições nos dias 26, 27, 28, 29 e 30. Isto significa que no espaço de 10 dias você tomou 40 refeições. Helloo? Não será mais fácil comprar um talho?! Caramba, eu acho que devo ter comido umas 40 vezes nos dias 24 e 25 e não foi assim que mantive o peso.

3. Beba água! Tente beber 2 litros de água por dia.
Portanto, 2 litros de água por dia ao final dos 10 dias seriam 20 litros de água, somados às 40 refeições! Ahhh.. Isto deve ser a dieta dos rinocerontes do zoo. Só pode.

5. Coma fruta e verduras entre as horas das refeições.
Ergh.. Eu não quero ser chato mas a menos que se trate realmente da dieta dos rinocerontes do zoo, ainda há espaço para comer frutas e verduras entre as 40 refeições e os 20 litros de água?

7. Mastigue devagar.
Esta é facil, aliás nem pode ser de outra forma se você vai comer 5 vezes ao dia enquanto ingere 2 litros de água, mais frutas e verduras. Coincidência ou talvez não, qual é o bicho que mastiga surpreendentemente devagar, qual é?

8. Coma em pratos pequenos.
Muito bem, então vamos comer 5 refeições ao dia mas em pratinhos de sobremesa. Não interessa se você come muito ou pouco, mas se comer 5 vezes ao dia e acima de tudo em vários pratinhos pequeninos é garantido que não vai engordar. Pois. Logo a seguir pode ir no carro do Noddy com o Elvis beber uma frize de limão ao café da Alice, no País das Maravilhas.

9. Afaste-se dos doces!
Reparem na imaginação prodigiosa destas mulheres com gato! Depois das 40 refeições em pratos pequeninos, dos 20 litros de água, das frutas e das verduras, ainda há espaço para os doces! Suas malucas!

10. Pratique exercício! Um passeio no mínimo de 30 minutos ajuda a fazer a digestão entre as refeições.
Passeio que deve ser acompanhado de frutas e verduras (lembra-se da dica nº5?), ou seja, mesmo quando não está a comer em pratinhos pequeninos você não pára de mastigar.

Caramba, isso é que vai ser perder peso como se não houvesse amanhã. Siga estas dicas e vai ver que 2010 vai ser um ano cheio de surpresas, especialmente quando estiver sozinha num elevador e ouvir o biiip a acusar excesso de passageiros.

Exageros à parte chego à conclusão de que as mulheres com gato dificilmente serão alguma vez boas conselheiras entre si. E porquê? Porque na sua essência permanecem iguais, melhor dizendo, rivais.

As morenas vão continuar a menosprezar as loiras, e uma mulher com gato que vista o 32 ou o 34 só pode realmente ser feliz se houver no mundo quem vista apenas o 36 ou o 38.

Do lado oposto e muitas vezes indecifrável estamos nós, os homens com cão. Quando há uns dias comentei com um amigo o peso a mais na balança, não recebi do outro lado 10 dicas para recuperar uma barriga lisa. Bastou um isso vai ao sítio com muito sexo e ginásio.

Colocado desta forma até parece fácil, mas a verdade é que uma mulher com gato não conseguiria chegar aqui sem primeiro falar dos chás de emagrecimento, da nova dieta que viu na Oprah, daquele ginásio que tem muito bom ar e da fulana tal que anda a comer o instrutor de cardio.

O novo ano está aí mas não é preciso ser o Prof. Karamba para advinhar que entre homens com cão e mulheres com gato, em 2010 pouco ou nada vai mudar.

ps: o bicho que mastiga surpreendentemente devagar é mesmo o rinoceronte!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Kiss Me

Não aguento mais. Nos os dois sabemos que mais tarde vamos beijar-nos à porta da tua casa. Para quê ficar a sofrer a angústia do momento do beijo se podemos despachar isto já, e desfrutar duma noite agradável?

A frase pertence a Alvy Singer, personagem incontornável da comédia romântica Annie Hall, a primeira obra-prima de Woody Allen, e que mereceu ao sarcástico realizador nova-iorquino 4 óscares da academia de Hollywood, em 1977.

No filme Woody Allen é Alvy Singer, um humorista neurótico que tenta manter uma relação com Annie Hall, personagem interpretada por Diane Keaton, à data namorada do realizador norte-americano, e cujo verdadeiro nome é Diane Hall, Annie para os amigos.

E apesar de Woody Allen nunca ter assumido o carácter auto-biográfico do filme, foi a similaridade da ficção com a realidade que fez deste filme o mais consensualmente aclamado entre a longa filmografia do realizador.

Annie Hall termina com Alvy Singer a meditar sobre a importância do amor, e da natureza complexa e dolorosa das relações tão necessárias à nossa felicidade. Ou seja.. 32 anos depois nada mudou nas relações modernas entre os homens com cão e as mulheres com gato(!).

Esta é a primeira conclusão. A segunda prende-se com a importância que o beijo assume no sucesso, ou no fiasco total da relação antes mesmo de ela acontecer. Partindo do princípio que a ideia foi perfeitamente assimilada pelas mulheres com gato, para os homens com cão com maiores dificuldades em processar a informação, o beijo faz a diferença entre marcar o golo da vitória no último minuto da final da Liga dos Campeões – vamos manter a linguagem acessível a toda a gente -, ou ir para casa ver o jogo num canal codificado. E não, não estou a falar da Sporttv.

Sabendo disto e da sua incapacidade em lidar com a pressão do 1º beijo, Woody Allen inventou Alvy Singer, um alter-ego capaz de desconstruir a ansiedade desse momento decisivo duma forma pragmática, sedutora, e harmoniosa.
No filme Allen recebe um beijo apaixonado de Diane Keaton, e os dois acabam por ceder à paixão e ao romance. Que bonitooo… Quase nos esquecemos que segundos antes do beijo Woody Allen disse qualquer coisa como vamos lá despachar isto…

Nem a propósito. Como estamos na altura das profecias do novo ano, não é preciso ser o Prof. Karamba para adivinhar o que vai acontecer a seguir se você arriscar um vamos lá despachar isto. Não está a ver? Então experimente e uns dias depois ligue a ver o que acontece. Eu não sou o Prof. Karamba mas arrisco uma previsão: a voz que vai ouvir é a operadora e diz, o número que marcou não se encontra atribuído.. o número que marcou..

Mas o que tem afinal o primeiro beijo de tão especial para fazer tanta diferença em tão pouco espaço de tempo?

…
…

Eu sei a resposta, estava só a criar ambiente.

Os primeiros relatos de beijos datam de 2.500 a.C., e aconteceram na Índia, apesar de sabermos hoje que os homens das cavernas também beijavam, mas para procurarem sal no suor, ou para alimentarem os recém-nascidos.

Homem das Cavernas 1: (nhaac.. chomp.. nhaac..) Atão o teu entrecosto está bom de sal?

Homem das Cavernas 2: (chomp.. chomp..) está um bocado para o ensonso, passa aí o teu braço!

Blheerk..

Gregos e romanos por exemplo faziam-no com especial alarde sempre que os seus regressavam dos combates pelo próprio pé, numa prática que pretendia reconhecer a bravura do guerreiro, mas que redundou em algumas piadas de mau gosto quando dois fulanos de 120 kgs trocavam uma carícia em público. Os fofinhoooos…

Os romanos foram os grandes responsáveis pela generalização da prática beijoqueira ao Ocidente, e tinham na altura 3 tipos de beijos: o basium entre conhecidos, o osculum entre amigos, e o suavium entre amantes. Humm.. Chego à conclusão de que devo ter tido um tio-avô romano qualquer, ou não fosse eu um português (muito) suavium.

A verdade é que o beijo certo no momento certo faz ruir qualquer defesa, mesmo nas mulheres com gato que no primeiro “olá boa noite” já nos mostraram que pela frente temos o tanque das piranhas, o fosso dos crocodilos, e o campo minado à volta das muralhas do castelo, antes da ida ao circo com o sobrinho, o almoço com a família, e a habitual prova de fogo à nossa paciência: uma ida ao shopping para ver montras em vésperas de natal.

Mas o inverso também pode acontecer, e num segundo apenas todas as expectativas entretanto criadas podem ruir como um castelo de cartas. Se até ali estavamos na categoria dos giros com muito interesse, depois dum beijo sem chama passamos imediatamente para o grupo dos chatinhos que não param de enviar mensagens.
Momento de reflexão: se por acaso aquela mulher com gato não responde às suas mensagens há 3 ou 4 dias, provavelmente é porque beijá-lo a si foi uma experiência tão agradável como lamber um soalho em corticite. Wake up!

O beijo não é só um momento, é o momento, e para as mulheres com gato é muito mais que isso, é também um infalível e poderoso mecanismo de avaliação.

De acordo com a antropóloga norte-americana Helen Fisher, quando beijamos activamos o cérebro e permitimos o acesso a 3 sistemas cerebrais primários que determinam a conduta sexual, a capacidade de amar e o afecto. Ou seja, num segundo a astuta mulher com gato consegue perceber se queremos dar uma queca, se estamos apaixonados ou carentes. Qual delas a pior!
Já no nosso caso a única preocupação dos homens com cão é tentar perceber em que momento do beijo podem meter a mão no rabo dela. Complicar para quê?!

Independentemente da natureza do beijo, sexual, romântica ou carente, o homem com cão não consegue contrariar a sua natureza. A saliva contém fortes quantidades de testosterona, uma hormona capaz de despertar o apetite sexual das mulheres com gato, e é por essa razão que nós gostamos de beijos com muita saliva. Até podemos estar apaixonados e tal, mas queremos mesmo é chegar lá! Ah pois é!

Porém, na prática as coisas não são assim tão simples.

Cada um de nós recebeu à nascença um kit personalizado de neurotransmissores. Encontrar um beijo perfeito não depende tanto da imagem que criamos para nós da pessoa perfeita, mas sim da compatibilidade hormonal.

A dopamina por exemplo está associada a pessoas criativas e dispostas a procurar paixões avassaladoras. Do lado oposto está a serotonina, a hormona dominante em relações conservadoras. Por sua vez pessoas analíticas, excessivamente lógicas e que gostam de jogar soduku, sentem-se mais atraídas pelo estrogénio, abundante em pessoas muito imaginativas e que nunca conseguiram terminar o cubo mágico sem decalcar os autocolantes, como é o meu caso.

Claro que no meio dum beijo ninguém vai dizer um disparate como adoro o teu estrogénio, ou dá-me com a tua dopamina toda, mas enquanto estamos entretidos a brincar com a língua o nosso cérebro está a estabelecer contacto, e segundos depois chegam os sinais que determinam no fundo o sucesso ou o fracasso do beijo.
Alvy Singer, o humorista neurótico que Woody Allen interpretou em Annie Hall, ultrapassa esta questão com o genial sarcasmo que só um personagem de Woody Allen consegue encarnar, mas convém não esquecer que nos beijos como na vida não há uma segunda oportunidade para causar uma boa primeira impressão.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Os Decotes e o Zodíaco

Sexta-Feira 30 de Outubro, numa estação de serviço algures entre Portalegre e Castelo Branco.

Não sei se já passaram um fim-de-semana sozinhos em Castelo Branco a trabalho. É mais ou menos o mesmo que assistir a um jogo de dominó entre 4 ou 5 reformados. É giro e tal mas não há muito movimento.

Sabendo disso de antemão, resolvi parar numa estação de serviço a meio caminho entre Portalegre e Castelo Branco, e arranjar qualquer coisa para ler à noite no quarto.

Um livro seria um compromisso demasiado sério e impossível de satisfazer numa noite só. Não. Teria de ser uma revista, algo que pudesse ler apenas naquela noite, e que não me obrigasse a ligar no dia seguinte a perguntar se foi bom e combinar um café.

Ora bem, deixa cá ver.. Humm..
As festas sexuais mais exclusivas estão a chegar a Portugal - uuhhh..
Perdi 5 cms em cada perna em apenas 3 sessões – treta..
Os cremes de acção imediata mais eficazes eleitos por um juri - há sempre um juri qualquer que escolhe os cremes nesta revista.

Escusado será dizer que comprei a Happy de Novembro. Castelo Branco consegue mesmo fazer com que um tipo perca a cabeça.

Olhei de soslaio procurando não ser surpreendido com uma revista de gaja nas mãos. Compreende-se. A meio caminho entre o alto alentejo e a beira interior gajo que é gajo gasta 1,90€ com três minis e três tijelas de tremoços, não vai comprar a Happy.

Como é habitual fazer sempre que levo uma revista, folheei algumas páginas apenas para satisfazer a curiosidade. Eis senão quando uma voz estridente invade a instalação sonora da estação de serviço:

O senhor que está a ler a revista ao fundo da loja, a consulta das revistas é proíbida.

Imediatamente 3 ou 4 nativos fulminaram-me com aquele olhar este deve ser de fora. O senhor que estava mais próximo fez questão de levantar o sobrolho empoleirado num bigode vistoso, onde eu juro ter visto algumas migalhas de pão caseiro, e restos da sopa de ontem.

Tudo isto para ler um artigo que prometia revelar o que dizem os signos sobre os homens. Personalidade, sexo e compatibilidades... Descubra tudo sobre eles. Claro que a ideia de descobrir o que dizem os signos de nós às mulheres acabou por ser irresistível, não só porque as mulheres com gato dão muita importância a estas coisas, mas sobretudo porque informação é poder!

Além do mais, para a maior parte dos homens com cão, o mundo das mulheres está para nós como Vénus está para o sistema solar. É um sítio perigoso, desconhecido e regra geral quem lá vai não regressa para contar a história. Medoooooo..

No essencial vejamos então o que diz a Happy dos homens com cão Virgem, e que valeu-me o olhar com desdém do homem do bigode vistoso com migalhas de pão caseiro, e restos da sopa de ontem.

Personalidade: de elemento Terra é o signo mais sexy e discreto do Zodíaco. Adepto da crítica e da actividade mental, o nativo de Virgem é um homem rigoroso e metódico. Exigente, criterioso, tem um dom para a análise e gosta de examinar todos os detalhes (...).
Como companheiro: (...) É fiel e espera que a companheira também o seja. É, contúdo, apreciador de um bom flirt, embora discreto.

Sexo: Um corpo nu visualmente agradável deixa-o louco de desejo, assim como um decote ousado. Fica doido ao ser seduzido em locais públicos. As fantasias do homem Virgem surgem usualmente com farda... Se quiser seduzi-lo aposte numa boa imagem de enfermeira! O nativo de Virgem procura a perfeição e atenta ao detalhe (...).

Ora bem, a primeira conclusão a retirar de tudo isto é que existe muito mais informação a nosso respeito à disposição das mulheres com gato. Basta abrir uma revista e tchaanaan!, eis-nos despidos das nossas armaduras, completamente desmontados como peças de um Lego nas mãos duma criança de 5 anos.

Já o contrário não se verifica. E porquê? Porque não queremos saber. Quando abrimos uma revista não temos paciência para ler as letras pequeninas. Aliás, nem as pequeninas nem quaisquer outras. Queremos é fotos e de preferência daquelas manhosas em bikini, ou de fio dental. E se aquilo estiver tudo bonitinho não há zodíacos nem bi-dentes que nos metam medo.

Neste aspecto – e em muitos outros – os homens com cão continuam a ser de Marte e as mulheres com gato continuam a ser de Vénus.

Em segundo lugar, percebe-se finalmente porque razão a dada altura numa qualquer conversa as mulheres com gato perguntam sempre, então fazes anos a que dia? E nós homens convencidíssimos de que elas estão preocupadas com a data, quando afinal estamos a ser diagnosticados da raiz dos cabelos aos dedos dos pés.
Atente-se no seguinte exemplo (acontece todos os dias):

Ela: Então diz lá, fazes anos a que dia?

Ele: Ohh que querida! Queres mesmo saber?

Ela: Claro que sim!

Ele: Faço a 5 de Dezembro!

Continuando com o mesmo exemplo, observemos agora as diferenças entre o que um homem com cão e uma mulher com gato dizem e pensam na mesma situação:

Ela: 5 de Dezembro? (humm.. Sagitário. Este gosta de noitadas e detesta a rotina)
Ele: Sim, e tu? (humm.. Ela está mesmo interessada em mim!)

Ela: Eu sou Capricórnio, faço a 17 de Janeiro. (não somos compatíveis)

Ele: Que giro fazemos em meses seguidos, devemos ser compatíveis então! Eu não ligo muito a signos, mas já li algures que os Sagitários são muito animados, gostam é de festa e aventura! E o que diz o teu de ti? (é melhor deixá-la falar..)

Ela: Capricórnio é o signo das pessoas complexas, persistentes e silenciosas.. (ou seja, o oposto de ti)

Ele: Ahhh.. Bom acho que os polos opostos atraiem-se não é? (uuups!)
Ela: Nem sempre.. (ainda por cima gosta de relacionamentos casuais, não quer casar e detesta a vida doméstica.. Nem pensar!)
Ele: Sabes, eu sinto um bom feeling entre nós os dois (adoro o teu decote!)

Ela: (pudera, não páras de olhar para as minhas mamas!) Sentes? Então e o que sentes em relação a compromissos a longo prazo, por exemplo? (surpreende-me..)
Ele: Ah! (esta é fácil) Eu sou 100% a favor de compromissos a longo prazo, desde que seja um dia de cada vez!

Ela: Ohpa, já viste as horas? Está a ficar tão tarde.. (socooorrooo!)

Ele: Pois a conversa voou (isto correu mesmo bem!)
Ela: Pois foi.. (eu é que vou voar daqui para fora!)

Ele: Então ligo-te amanhã?

Ela: Deixa estar, eu depois ligo-te!

Uma semana depois..

Ele: Deve ter esquecido de ligar.. Deixa cá ver o número.. 96.. 733.. 8.. Já está!

Operadora: “O número que marcou não se encontra atribuído... O número que marcou...”

Moral da história: as coisas são como são e dificilmente serão diferentes amanhã se nunca o foram até agora. O artigo da Happy serviu para uma coisa, perceber essencialmente que continua tudo na mesma.

As mulheres com gato estão cada vez mais (bem) informadas a nosso respeito, ao passo que nós, homens com cão, continuamos despreocupadamente desatentos ao pormenor, à espera que as coisas aconteçam e que o destino nos bata à porta.

As leis da atração continuam a depender dum equilíbrio de forças desigual. Para uma mulher com gato há mil e uma coisas que podem correr mal, ao passo que para um homem com cão apenas um coisa tem de correr bem.

Transportando tudo isto para o universo das revistas, enquanto que nós precisamos apenas de gostar daquilo que vemos, elas precisam essencialmente de gostar daquilo que lêem.

E se dúvidas existirem basta subir observar como destaquei a parte do decote ousado uns parágrafos acima. Resulta sempre! Maldito zodíaco.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Sofá para 2

Pronto, é oficial. Lá se foi o verão.

Resultado prático, para além da chuva que caiu como se não houvesse amanhã durante a noite de ontem, hoje comi 4 donuts para oficializar condignamente o fim do período estival. Termina o verão terminam as dietas.

O Outono é aquela estação do ano que não se parece com nada. Nem está frio o suficiente para tirarmos os vincos das camisolas de malha que estão guardadas no roupeiro há 6 ou 7 meses, nem calor que chegue para andarmos na rua de manga curta com aquelas peças que compramos nos saldos de fim de estação, e que em boa verdade só vão servir lá para o verão de 2010.

É aquela estação do ano que irrita à brava, sobretudo quando no mesmo dia – como ontem por exemplo – a manhã começa com um nevoeiro cerrado capaz de fazer medo ao D. Sebastião, o meio-dia chega debaixo dum sol sufocante para quem saíu de casa preparado para o nevoeiro, às 4 da tarde começa a chover torrencialmente quando já estamos de manga curta, e ao final do dia vem aquele ventinho gelado do ártico mesmo a propósito para quem anda com os pés encharcados há umas 3 horas.

Caramba chamem-me implicativo, mas um tipo nunca sabe o que há-de vestir.

Curiosamente o Outono é aquela estação do ano que mais semelhanças encontra com a política, isto porque a maior parte dos portugueses nunca sabe em quem vai votar.
Veja-se o caso de José Sá Fernandes por exemplo, vereador independente eleito pelo BE, e que agora aparece nas listas do PS ao lado de António Costa nos outdoors espalhados pela cidade.

Sá Fernandes é aquele tipo de político que confunde imenso a roupa que vai vestir, mais ainda nesta altura do ano, e particularmente em vésperas de eleições autárquicas.

Mas nem tudo é mau. Para muita gente o Outono é aquela estação do ano em que começamos a comer de novo. Depois de meses de fome e privações sentimos que todo esse esforço merece afinal um prémio.


Quando há meses atrás procuravamos o peixinho grelhado com a batatinha cozida, agora nem pestanejamos ao mandar vir uma dose de feijoada à transmontana enquanto barramos a manteiga no pão. A propósito, ainda se lembra do sabor do pão? Costuma ser de trigo, leva àgua e sal? ... Não? ... É aquela coisa fofinha que está dentro dum cesto no centro da mesa!

O Outono é essencialmente um mês de (re)descobertas, a começar pela roda dos alimentos: olha a casa dos cerais e derivados! Já cá não vinha há uns mesitos!

Mas é também um mês de transição emocional entre homens com cão e mulheres com gato. Depois das longas noites de verão e das revoluções hormonais operadas pelo calor, Outubro traz-nos de volta à realidade.

De acordo com um estudo elaborado pelo website Meetic – o portal de online dating mais utilizado em Portugal e na Europa -, mais de metade dos portugueses inquiridos associam a Primavera ao romance, e o Verão ao desejo e à paixão. Uma relação aliás que só vem provar até que ponto o amor consegue ser lixado.

A propósito, lixado está em itálico porque lê-se lixado com “F” grande. Sobretudo para as mulheres que passam o inverno a fazer companhia ao gato no sofá, apaixonam-se na pior altura do ano por causa das alergias, e 3 meses depois são literalmente lançadas aos bichos num mercado feroz, e em que não há respeito algum pela propriedade privada.
É algo parecido com o mata-mata do Scolari cruzado com a febre nacionalista do Hugo Chavez, mas de saltos altos.

Medo. Muito medooo..

Ainda citando o mesmo estudo, se por um lado o verão significa desejo e paixão, por outro lado é a altura do ano em que mais relações encontram o seu fim. E o que é que isto tem de bom? Temos caminho aberto para finalmente encontrar alguém que nos aqueça os pés no Inverno.

E é precisamente disto que se trata quando falamos duma relação. Ter alguém que nos aqueça os pés nas noites mais frias (a propósito, apesar de eficaz o saco de àgua quente não conta).


A melancolia dos fins de tarde outonais, e as inóspitas noites de inverno remetem-nos para um cenário de solidão agravada. Dentro de dias estaremos barricados nas nossas próprias casas. Seremos prisioneiros da chuva e reféns das frentes frias. O tempo muda, e com ele o nosso estado de alma.

E se até aqui conseguimos disfarçar essa solidão graças à agitação caracteristica das noites de verão, quando há sempre alguém pronto para beber um café numa esplanada qualquer, daqui para a frente será muito mais difícil lidarmos com o barulho da chuva.

Talvez por isso 20% das pessoas inquiridas no estudo realizado pelo Meetic, confessou ser esta a altura ideal para assumir um compromisso sério nas suas vidas. Convenhamos, até se percebe porquê. A perspectiva de ficarmos sozinhos em casa enrolados numa manta nos próximos meses, coloca-nos em rota de colisão com o Natal dos Hospitais, e não há coisa mais deprimente que (re)ver a Isabel Angelino ao lado do Jorge Gabriel.

É por isso a altura ideal para tratar de si. Comece por coisas simples e que revitalizam o corpo e a mente. Os homens com cão chamam a isso Red Bull, as mulheres com gato preferem chamar compras. A chegada do frio é uma oportunidade óptima para renovar o guarda-roupa, e nada melhor do que ter alguém para carregar os sacos durante o seu banho de lojas.

E se calhar esta é talvez a única altura do ano em que isso não será um problema para a generalidade dos homens com cão, afinal também nós vamos ter de suportar o barulho da chuva sozinhos, e enfrentar aquela sensação desagradável de entrar numa cama fria e vazia à noite. Não vou arriscar dizer com lençois lavados porque isso já seria abusar da sorte, tratando-se de homens com cão sozinhos em casa.

A verdade é que também nós, os duros, sofremos com a melancolia e tristeza dos dias cinzentos. E é a olhar para a chuva que nesta altura do ano muitas vezes pensamos em duas coisas das quais sentimos falta: preciso de arranjar alguém e preciso dum guarda-chuva. Não por esta ordem necessariamente.


É certo e sabido que nós homens com cão só damos valor ao compromisso quando sofremos com a solidão. E no nosso caso o problema é ainda mais grave por sabermos que com os nossos não podemos contar.


Amigo 1: Então pah?! Mas o que se passa, conta lá ao teu mano!


Amigo 2: Ohpa não se passa nada. Está tudo bem...


Amigo 1: Ohhh! Passa-se qualquer coisa sim que eu sei. Nós já nos conhecemos há quantos anos? Vá diz lá..


Amigo 2: Ohpa... Não é nada de especial. Sinto-me sozinho sei lá.


Amigo 1: Sentes-te sozinho? Ohpa então vem sair com o pessoal!


Amigo 2: Oh! Não é nada disso Toni! Sinto-me sozinho.. Faz-me falta uma pessoa na minha vida pah.


Amigo 1: Ohpa então orienta-te dumas gajas! Olha aproveita e arranja uma para passar o fim-de-semana lá em casa contigo, pode ser que limpe aquilo tudo pah!

Ao contrário das mulheres com gato nós conseguimos ser muito mais solidários com os nossos amigos, mas em contrapartida somos péssimos conselheiros, especialmente quando o problema são as mulheres.


Para a generalidade dos homens com cão a tristeza dum amigo cura-se com uma noite de copos e gajas. Mas não são umas gajas quaisquer. São aquelas tipo buffet com tudo incluído! Claro que a ideia de comer tudo o que se consegue não deixa de ser tentadora, mas nestas coisas a quantidade não se dá com a qualidade, e no fim aos problemas que já tinhamos junta-se um novo: a ressaca, e uma tipa qualquer a deixar-nos 150 mensagens por dia no telemóvel, que entretanto nós demos porque estavamos bêbados.


Isto pode parecer inverosímil, mas nesta altura do ano nós, os duros, lidamos mal com a solidão, e quem disser o contrário está a mentir. A verdade é que também nós passamos as tardes cinzentas de Domingo enrolados no sofá, debaixo da mantinha, a devorar comédias românticas e Ferreros Rochés.

O Outono é um eclipse para nós, homens. Um breve período de ocultação em que as nossas prioridades alinham-se com as necessidades de todos os dias das mulheres com gato. E nesse sentido até mesmo o Natal dos Hospitais parece ser uma experiência transcendente, se for vivida a dois. Talvez não tanto com a Isabel Angelino, mas enfim.


Seja como for, uma coisa é certa. Não há altura como esta para dividir um sofá a dois.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

ps: I Love You

Adoro-te anónimo: Olá.. Sou o Francisco, tenho 38 anos e não consigo dizer “adoro-te”.

Todos: Oláaaa Francisco!

Este podia muito bem ser o início duma qualquer reunião dos Adoro-tes Anónimos, um grupo de pessoas com problemas em dizer adoro-te.

A ideia pode parecer caricata mas não deixa de ter um fundamento de verdade, primeiro porque devem existir por aí muitos Franciscos que não conseguem dizer adoro-te, depois porque há muitos mais homens que Franciscos a sofrer do mesmo bloqueio.

Deve ser uma embirração qualquer com a palavra adoro-te, que curiosamente dizemos sempre com a maior das facilidades quando estamos prestes a passar para a parte física da adoração.
Regra geral adoro-te é das últimas coisas que dizemos antes de começarmos realmente a adorar o corpo da nossa parceira.

Mas o facto de não o dizermos não quer necessariamente dizer que não o sintamos, antes pelo contrário. Na verdade sentimos sim, simplesmente nós homens com cão temos diferentes formas de sentir, diferentes formas de comunicar com os nossos sentimentos, e sobretudo diferentes formas de verbalizar as nossas emoções.

Homem que é homem nunca vai dizer a outro gajo gosto de ti, a menos que tenha em casa o dvd do Brokeback Mountain. Em edição especial para colecionador. Ou seja, algo muito abixanado e suspeito.

Não. Homem que é homem limita-se a dizer sabes que ‘tás aqui broda, enquanto bate com a mão no peito à King Kong. Quanto muito admite-se um ligeiro vacilar na voz, imediatamente justificado por uma certa rouquidão para disfarçar a carga emotiva do momento.

E se entre nós homens com cão esta linguagem faz todo o sentido e é universal, as coisas complicam-se quando do outro lado está uma mulher com gato.

Amiga 1: Então?! Ele disse-te que gosta de ti?!

Amiga 2: Sim, disse..

Amiga 1: Yuuhuuu! Ai contaa contaaa! Como é que ele disse?!

Amiga 2 claramente desiludida: Ele disse, sabes que estás aqui sister... E depois bateu com a mão no peito. Parecia o King Kong.

Ergh.. Pois, isto assim não dá. E não dá porquê? Numa palavra: inteligência emocional.

Ok, são duas palavras, mas têm apenas um significado.

A inteligência emocional representa a capacidade que cada um de nós tem para reconhecer, interpretar e lidar com as emoções. A chave da inteligência emocional é a autoconsciência, ou seja, a capacidade de reconhecer um sentimento quando ele ocorre.

Nos homens essa capacidade está mais direcionada para coisas importantes como ... hummm ... O futebol!

(no estádio)

Adepto: Foda-s#! É penalty! Como é que o árbitro não viu?! Seu filho da put######!

Adepto na cadeira ao lado: Eu compreendo a razão da sua frustração, porém o importante agora não é o penalty, mas sim a autoconsciência e o reconhecimento emocional que vai permitir com que você lide melhor com as suas emoções...

Adepto: O quê?! Ohpa vai-te fod##!

Como é sabido o bem estar emocional depende em grande medida do controlo que nós temos das nossas emoções e sentimentos, e existem sentimentos como a ira que destabilizam emocionalmente as pessoas, especialmente dentro dum estádio de futebol.

Quando isso acontece o individuo tende a procurar de novo o equilíbrio emocional. É aí que entra a polícia de intervenção à bastonada e ficamos de novo calminhos.

Adiante.

A grande diferença entre os homens com cão e as mulheres com gato, é que enquanto nós incosncientemente suprimimos as emoções no nosso dia-a-dia (excepção feita aos jogos de futebol), as mulheres com gato enfrentam-nas frontalmente até encontrarem um equilíbrio, e é nesta diferença que nos desencontramos quando se trata de lidar com sentimentos.

As emoções vivem no plano de fundo da vida de um homem e no primeiro plano da vida de uma mulher
in: The Lazy Husband, Josh Coleman.

E por muito que nós homens quiramos que não seja assim, infelizmente o nosso adn faz-nos lembrar o contrário: é mesmo assim. Por isso é que homens e mulheres estão habitualmente em pólos opostos nas discussões.

Ela sente-se ferida de morte porque ele esqueceu-se do aniversário de casamento, ele por outro lado acha que ela está a exagerar porque estas coisas acontecem, e para o ano compensa.

Não querendo desculpar a aparente indiferença que os homens com cão conseguem ter para com as datas importantes da vida dum casal, a verdade é que o problema já nasceu connosco.

De acordo com o International Center for Health Concerns, o nosso cerebro está dividido em duas partes: o lado esquerdo (responsável pelo pensamento lógico), e o lado direito (responsável pelas emoções). No caso das mulheres com gato a ligação entre o lado lógico e o lado emocional é muito maior, quase como se existisse uma auto-estrada entre o lado esquerdo e o direito que não só facilita a comunicação, como faz com que as mulheres raramente dissociem a lógica da emoção.

Um exemplo: uma mulher com gato vê um par de sapatos lindos de morrer, daqueles que não fazem falta nenhuma mas que TEM MESMO de comprar. Compra. Decisão lógica ou emocional? Lógica porque no caso das mulheres a emoção de ter um par de sapatos irresistiveis faz todo o sentido.

Já no nosso caso as coisas não se processam desta forma. A distância entre o lado lógico e o lado emotivo é maior, isto porque existe uma espécie de estrada secundária entre os lados esquerdo e direito do nosso cérebro, que torna a comunicação entre ambos muito mais demoraaaadaaaa..

Por isso é que um homem com cão perguntaria sempre à mulher com gato do par de sapatos mas tu precisas mesmo desse par de sapatos?

É inevitável. Nós reagimos de formas diferentes às emoções, e no nosso caso concreto temos tendência para esquecê-las mais depressa, precisamente porque o acesso ao nosso lado emotivo é mais complexo.

É por isto também que as mulheres com gato conseguem coisas realmente incríveis, como puxarem para uma discussão em tempo real algo que se passou quando o Marquês de Pombal ainda era vivo.

Ela: .. e tu lembras-te daquela vez em que eu disse que não me apetecia comer sardinhas e tu insististe em irmos ao restaurante de peixe-assado?

Ele: Desculpaaa?!

Um estudo recente publicado no Journal of Personality confirma tudo isto de forma inquestionável. As mulheres com gato têm maior facilidade em lidar com as emoções, enquanto nós homens com cão sentimos maiores constrangimentos na hora de exprimir os nossos sentimentos.

É por isso que a médio e longo prazo o divórcio costuma ser mais devastador para os homens.
Remete-nos para um campo minado de emoções, um território virgem, inexplorado e com o qual aprendemos a lidar com muita dificuldade. Quando aprendemos.

A ideia dos adoro-tes anónimos pode parecer absurda, mas iria certamente abalar as certezas de muitas ex-mulheres com gato convencidas de que o ex-homem com cão simplesmente deixou de se importar, quando provavelmente apenas não se conseguiu explicar.

E como é que tudo isto se resolve? Com post-its. Quando sair de manhã deixe um colado no despertador dela. Ou dele, porque também há muitas mulheres que não sabem dizer..
ps: I Love You.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A tragédia grega

Aposto que desta vez perdeu mais alguns segundos do que é habitual antes de se debruçar sobre o tema propriamente dito.

Admita, esteve debruçada sobre a foto, certo? Acredito que sim, e há razões para isso. Afinal trata-se tão somente do homem mais bonito do mundo.

Este é Sakis Rouvas.

E quem é Sakis Rouvas, pergunta você? Bom, Sakis Rouvas é um cantor grego natural da ilha de Corfu, na Grécia pois claro, e que nos últimos meses tem aparecido nas caixas postais electrónicas um pouco por todo o lado, não só aqui no meu prédio mas aparentemente na minha rua, e ao que parece no mundo inteiro.

Alegadamente Sakis Rouvas terá sido eleito o homem mais bonito do mundo. Dizem que venceu um concurso, mas ninguém sabe explicar muito bem que concurso foi esse, quem votou, e quem foi a votos com o grego.

Até há poucos meses atrás Sakis Rouvas era conhecido simplesmente como o Ricky Martin da Grécia. Ou seja, só era conhecido na Grécia.

Rouvas granjeou este rótulo à custa de muito jogo de cintura, e de videoclips que levam as suas fãns à loucura. Mas as semelhanças com Ricky Martin não se ficam por aqui. Ao que parece Rouvas também gosta imenso de brincar aos ferryboats, aquele barco que é conhecido por atracar dos dois lados.

Verdade ou mentira ninguém sabe ao certo. Aquilo que se sabe é que o mail circula na web. Eu já o recebi, e como eu milhões de pessoas no mundo inteiro. Apresenta Sakis Rouvas como o homem mais bonito do mundo, depois duma eleição fantasma que ninguém parece conseguir comprovar em lado algum, e que provavelmente terá tido apenas uma pessoa a votar: a mãe de Sakis Rouvas.

Aposto que neste preciso momento a Carolina Patrocínio está a dizer para si própria como é que eu não pensei nisto antes?! Bom, talvez porque é preciso pensar e isso como é sabido não está ao alcance de todos, a julgar pelos disparates que a bimbolette da SIC diz a cada vez que abre a boca.

Esquema ou não a verdade é que a popularidade do cantor grego disparou desde Novembro do ano passado – altura em que começou a espalhar-se o rumor -, e alguns meses depois Rouvas foi escolhido para representar a Grécia no festival da Eurovisão da canção em Moscovo, onde já não esteve o mítico Eládio Clímaco, esse mesmo que na última edição apresentada por si disse para o ano vamos estar em Reykjavic, na Finlândia! Sim, essa Reykjavic, a capital da Islândia.

Mas voltemos a Sakis Rouvas.

Independentemente de ser verdade ou não uma coisa é certa: este é o tipo de homem com cão que preenche o imaginário de todas as mulheres com gato. Ou quase todas porque nisto das mulheres há sempre alguém que é do contra.

Dito de outra forma, este gajo é o tipo de gajo com o qual as mulheres (e alguns homens como o Ricky Martin por exemplo) fantasiam a vida toda. O homem com quem fugiriam para uma ilha deserta se pudessem escolher, aquele que esconderiam das melhores amigas se fosse preciso, e que levariam para o altar se fosse possível.

Sim, já há quem discorde neste preciso momento:

Mas que disparate! Alguma vez trocava o meu marido por este fulanito?!

Por acaso trocavam sim! Passo a explicar. No último mês as leitoras mais atentas repararam certamente na sondagem postada no rodapé do Blog:

Se por magia pudesse desaparecer durante um fim-de-semana sem que ninguém reparasse, quem levaria consigo para uma ilha deserta no pacífico?

26% das mulheres com gato inquiridas levariam uma paixão nova, avassaladora e completamente inconsequente para um fim-de-semana romântico numa ilha deserta.

66% - pasme-se! – confessaram que a escolha seria sem dúvida aquela pessoa em quem de vez em quando penso “como seria”.

Surpreendentemente (ou talvez não) apenas 8% das mulheres com gato responderam o meu marido/namorado/junto.

Ou seja, dois terços (!) das mulheres com gato que responderam a este questionário escolheriam o Sakis Rouvas das suas vidas para se entregarem à luxúria numa ilha perdida no meio do Pacífico. Dois terços. É uma maioria parlamentar muito respeitável.

Sakis Rouvas é afinal muito mais que a versão xué do Ricky Martin. Sakis Rouvas pode até nem ser o homem mais bonito do mundo (não é seguramente o mais feio), mas representa no fundo tudo aquilo que as mulheres mais desejam, e que bem vistas as coisas não podem ter: a ideia do Deus grego. O homem perfeito.

Sou naturalmente avesso a generalizações, mas esta é uma tragédia grega a que eu próprio já assisti vezes sem conta na 1ª pessoa. Sei por isso do que estou a falar.

Acontece muitas vezes. Elogiam o carácter e o sentido de humor, valorizam o conteúdo e a sinceridade, acham-nos queridos e super simpáticos, mas tudo isso só dá para sermos a pessoa muito especial. Não chega.

Amiga 1: Então querida? Como estão as coisas contigo e com aquele teu amigo, o Francisco?

Amiga 2: O Francisco é um queridoooo. Super simpático, atencioso, faz-me rir.. É uma pessoa muito especial..

Amiga 1: Muito especial. Ou seja, não vais sair com ele.

Amiga 2: Não! (risos) Estou a sair com o Ricardo, yuhuuu!

Amiga 1: Não me falaste dele!

Amiga 2: Tenho aqui uma foto dele na praia no meu telemóvel, espera...

Amiga 1: Uaaauuuu! Bem amiga, ele é podre de bommm!

Amiga 2: Pois é!

Poooois é. E é mais ainda quando se trata de mulheres realmente muito bonitas.

Este é apenas um exemplo mas serve na perfeição para ilustrar a tragédia grega a que repetidamente as mulheres se entregam: uma amiga minha de quem não interessa agora saber o nome, queixa-se desde sempre que tem azar com os homens. Ouço-a dizer vezes sem conta que nós somos todos iguais, e que os homens são todos a mesma porcaria, e que só a querem para a cama.

Os homens não são todos a mesma porcaria. Ela é que escolhe sempre a mesma porcaria de homens. Essa é a grande diferença. E isto acontece com quase todas as mulheres: regra geral escolhem sempre o mais giro. Regra geral o mais giro é sempre o pior. E regra geral acreditam sempre que com elas vai ser diferente.

E podia continuar a citar (muitos mais) exemplos, mas este é já suficientemente ilustrativo.

Se dúvidas existirem basta clicar num qualquer site social como o Netlog, por exemplo. Homens mais bonitos do mundo como o Sakis Rouvas há-os às centenas. De tronco nu, cheios de abdominais e com um sorriso pepsodent. Basta escolher um ao acaso, clicar numa foto, e em poucos segundos encontramos dezenas de comentários de mulheres que nos fazem esquecer rapidamente a importância do interior numa pessoa.

Como disse antes sou naturalmente avesso a generalizações. Há excepções concerteza, mas eu conheço muito poucas.

E desafio quem se atrever a dizer o contrário. Conheço uma mão cheia de tipos que podiam à confiança enviar mails dizendo que foram eleitos os homens mais feios de Portugal. Poucas pessoas iriam duvidar. São no entanto das melhores pessoas que eu conheço, mas comentários nas fotos em perfis sociais nem vê-los.

Sakis Rouvas. O Ricky Martin da Grécia. Nasceu numa pequena ilha no mediterrâneo chamada Corfu.
Diz por aí que foi eleito o homem mais bonito do mundo.
Pergunto-me se alguma vez ouviu isto em grego:


Είστε πολύ πρόσθετο πρόσωπο, αλλά όχι.(*)

Pois, se calhar não ouviu.

(*) és uma pessoa muito especial, mas não dá.